A Mensagem Oculta

A abertura dos olhos

Ainda estamos em Gênesis 38, nesta estranha e inesperada interrupção da narrativa, na história de Judá e Tamar. Estamos entrando na parte mais interessante da história, na «ação» da história, que de acordo com o texto acontece «muito tempo depois», muito tempo depois dos acontecimentos que discutimos da última vez.

Lemos que muito tempo depois «a filha de Sua, esposa de Judá, morreu» e quando o período de luto terminou, «Judá subiu aos tosquiadores de suas ovelhas, em Timna, ele e seu amigo Hira, o Adulamita». Aqui Tamar entra em cena novamente: lemos que foi dito a Tamar: «Eis que o teu sogro sobe a Timna para tosquiar as ovelhas». O que Tamar fez ao ouvir essa notícia?

Lembremos de que Tamar já é aguná há muito tempo, pois era considerada noiva de Selá e, embora «Selá fosse adulto, não lhe foi dada por esposa». Depois da tragédia que ela experimentou (duas vezes), parecia que ela permaneceria sem filhos. No entanto, Tamar decidiu que a infidelidade de seu sogro não a impediria de ter filhos e de fazer parte da família de Deus, então ela fingiu ser prostituta para apanhar seu sogro. Ela «despiu as vestes de sua viuvez e, cobrindo-se com um véu, se disfarçou e se assentou à entrada de Enaim, no caminho de Timna».

A maioria das traduções diz que ela se sentou em um lugar aberto. Às vezes, o nome do lugar onde ela estava sentada é transliterado: «ela se sentou na entrada de Enaim». No entanto, se lermos a história de Judá e Tamar em Hebraico ficamos impressionados com o nome do lugar: (בְּפֶתַח נַינַיִםBePétaj Eyaním), literalmente: «na abertura dos olhos».Essas palavras são incrivelmente significativas e realmente indicam o significado desta história: trata-se da «abertura dos olhos» do coração. Nesse ponto, os olhos de Judá ainda estão fechados, mas não permanecerão assim. É por isso que Tamar, a ferramenta inesperada e improvável de Deus, está sentada neste lugar, porque Deus deseja abrir os olhos do coração de Judá.

Reconhece, por favor!

Quando Judá viu Tamar, ele não a reconheceu e a confundiu com uma prostituta. Como pagamento por seu serviço, ele prometeu enviar-lhe um cabrito, o que nos traz de volta à história da venda de José no capítulo anterior. Vocês se lembram que os irmãos abateram um cabrito, molharam a túnica de José no sangue e mandaram a túnica para o pai deles? Além disso, quando vimos Jacó enganado por esta túnica, não pudemos deixar de lembrar que o mesmo conjunto —roupas especiais e um animal abatido— também foi usado por Rebeca, e o próprio Jacó, para enganar seu pai Isaque. Parece que, começando em Gênesis 3, toda vez que temos um animal abatido e roupas especiais, isso serve de encobrimento para algum pecado grave ou engano. Nesta história, porém, logo veremos a abertura dos olhos. Tamar pediu um penhor: «Dar-me-ás um penhor até que o mandes?»Ela pediu seu «selo, manto e cajado» e, surpreendentemente, ele deu a ela todos esses itens.

Aprendemos que, por meio dessa malandragem, Tamar engravidou de Judá: «ela concebeu dele». Quando, cerca de três meses depois, Judá foi informado de que «Tamar, sua nora…. está grávida por prostituição», disse Judá: «irai-a fora para que seja queimada!». Tamar ainda era considerada noiva de Selá, e Judá, como chefe da família, tinha poderes judiciais. Sua decisão foi dura e rápida.

Mas então algo muito significativo acontece. Quando Tamar traz os itens pessoais de Judá, ela diz: «Reconhece, por favor!» – הַכֶּר־נָ֗א. Em Português, nada nos parece incomum nessa frase, no entanto, quando lida em Hebraico, a conexão entre essas duas histórias —a história da venda de José e a história de Judá e Tamar— torna-se absolutamente evidente. Esta expressão, הַכֶּר־נָ֔א —«observe, por favor!» ou «reconhece, por favor!»— aparece apenas duas vezes em toda a Torá, e vocês conseguem adivinhar onde é usada pela primeira vez? Bem no capítulo anterior, quando os irmãos trazem o casaco de José para Jacó e dizem: «reconhece, por favor, se é o casaco de teu filho!» – הַכֶּר־נָ֗א – discernir, reconhecer, examinar. Vocês podem imaginar? Em toda a Torá, esta expressão aparece apenas nestes dois capítulos: Gênesis 37 e 38. No primeiro caso, Judá foi um enganador, muito provavelmente foi ele quem disse essas palavras, porque, como vimos, ele era um líder entre os irmãos; agora, porém, é ele quem é enganado. O engano de Judá o revisita em suas próprias palavras e é neste exato momento, quando Judá ouve essas palavras, que seu coração é traspassado pelo reconhecimento, não apenas pelo reconhecimento de suas próprias coisas, mas muito mais profundamente, pelo reconhecimento de sua própria culpa. Agora seus olhos estão realmente abertos e ele tem uma verdadeira mudança de coração. Ele confessou e se arrependeu.

A confissão de Judá

Chegamos ao clímax desta história: a confissão de Judá: «Reconheceu-os Judá, e disse: “Mais justa é ela do que eu; porquanto não a dei a Selá, meu filho“».

Lemos uma bela descrição dessa transformação no Midrásh: «Então Judá se levantou e disse: «Eu faço saber que com a medida com que um homem mede, ela será medida para ele, seja para o bem ou para o mal, mas feliz o homem que reconhece seus pecados. Porque eu peguei o casaco de José, e o tingi com o sangue de um cabrito, e então o coloquei aos pés de meu pai, dizendo: “Reconhece agora se é o casaco de seu filho ou não, portanto devo agora confessar, diante do tribunal, a quem pertence este selo, este manto e este cajado”».

Claro, o Midrásh apenas preenche as lacunas que as Escrituras deixam de fora. No entanto, há um ponto a não ser perdido: Judá reconheceu e confessou seu pecado. Além disso, ele não o fez sob pressão externa: era a palavra dele contra a dela, e como o status social dela era incomparavelmente inferior ao dele, uma mulher, uma viúva, provavelmente Cananéia, ninguém daria atenção à palavra dela. No entanto, Deus queria abrir os olhos de seu coração e, portanto, testemunhamos essa profunda transformação interior no coração de Judá.

Por que essa história está aqui no meio da saga de José? A Torá quer ter certeza de que saibamos que o Judá que vem ao Egito e se aproxima de José não é o mesmo Judá que vimos no Capítulo 37, na história da venda. Este Judá tem um caráter completamente diferente: Deus estava trabalhando em seu coração e os olhos de seu coração foram abertos. Além disso, se vocês já se perguntaram por que o Rei Davi, e também Jesus, vieram da tribo de Judá, esta história lhes dá a resposta: em certo sentido, Judá começa o tikún olám[1], reparando o mundo, trazendo-o de volta a Deus. Como assim? Nós sabemos que em Gênesis 3, respondendo à pergunta de Deus, Adão aponta o dedo para sua esposa: ela é a culpada. Quando Deus questiona Eva, Ele obtém uma resposta semelhante dela: a serpente era a culpada. Depois disso, o SENHOR pronuncia sua punição, mas atrevo-me a dizer que Adão e Eva foram punidos não apenas por comerem do fruto: essa transferência de culpa foi algo que distorceu a criação e a desviou do caminho que Deus planejou originalmente. Em Gênesis 38, Judá se torna o primeiro personagem bíblico a consertá-lo: ele assume a responsabilidade por seus próprios atos e se arrepende. Ao contrário de Adão, que disse: «ela é a culpada», Judá disse: «Eu sou o culpado». Assim, Judá é a primeira pessoa no livro de Gênesis, e, portanto, em toda a Bíblia, a confessar seu pecado, assumir a responsabilidade por ele e mudar seu comportamento. Ele é de fato aquele que confessa.

 

 

[1] Estas palavras Hebraicas são normalmente traduzidas como «reparar o mundo».

 

 

Os conhecimentos que vocês leem nessas páginas são típicos do que compartilhamos com nossos alunos durante os cursos DHB (Discovering the Hebrew Bible/Descobrindo a Bíblia Hebraica) ou WTP (Weekly Torah Portion/Porção Semanal da Torá). Se esses artigos despertarem seu interesse por descobrir os tesouros escondidos da Bíblia Hebraica, ou estudar em profundidade a Parashát Shavúa, junto com os conhecimentos do Novo Testamento, ficaria feliz em fornecer mais informações (e também um desconto de professor para os novos alunos) em relação aos cursos da eTeacher   (juliab@eteachergroup.com ). Além disso, trechos de meus livros estão incluídos neste artigo (e muitos outros posts aqui), então se vocês gostam dos artigos neste blog, vocês podem gostar também dos meus livros, vocês podem obtê-los aquí.

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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