De Jerusalém A Roma: Estêvão

Meus caros leitores, enfim, podemos voltar à série que foi interrompida por causa das férias, aos comentários sobre o livro de Atos. Gostaria de lembrar a vocês por que escolhi este livro específico para discutir. Na maioria das vezes, o livro de Atos é percebido como uma linha de demarcação, como uma declaração de separação de tudo que é Judaico. Mesmo que todo o Novo Testamento tenha sido amplamente mal lido e mal compreendido, o livro de Atos é especialmente crucial para a compreensão dessa divisão de caminhos. E, à primeira vista, até a própria estrutura deste livro proclama essa grande separação: a narrativa começa em Jerusalém e termina em Roma! O livro é muito claro: a mensagem de Jesus deve ir também aos Gentios, deve ser transmitida de Jerusalém a Roma, e, neste sentido, o itinerário está traçado.

Todos nós sabemos, porém, que qualquer navegador pode nos levar ao mesmo destino por caminhos muito diferentes. Além disso, se perdermos uma curva ou pegarmos uma curva errada, nosso navegador recalcula para nos levar de volta ao caminho certo (alguns até dizem, «Recalculando»). Possivelmente tenha sido feita alguma curva errada nesta estrada de Jerusalém a Roma? Parece que talvez seja necessário fazer aqui um recálculo, a fim de nos colocar de volta no caminho certo.

Meu objetivo é demonstrar o caráter Judaico do livro de Atos, demonstrando seu contexto histórico e cultural Judaico do século I. Já começamos a ler este livro juntos, vimos os dois primeiros capítulos até agora e hoje continuamos do Capítulo 3. Como um lembrete, minha intenção é apontar apenas aqueles detalhes que pertencem ao contexto Judaico e não são óbvios para um leitor Cristão.

Ám há-áretz

Em Atos 3, lemos sobre o grande milagre que Pedro e João realizaram: eles curaram um coxo no Templo. As pessoas ao redor ficaram maravilhadas ao ver este homem curado, e Pedro respondeu a elas com um discurso, pregando mais uma vez, a salvação em Jesus: «Homens de Israel, por que vocês se maravilham com isso?… O Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Deus de nossos pais glorificou o seu servo Jesus… E o seu nome, pela fé no seu nome, tornou forte este homem que vós vedes e conheceis».[1]

«Enquanto falavam ao povo, os sacerdotes, o capitão do Templo e os Saduceus vieram sobre eles, ressentidos por ensinarem eles o povo e anunciarem em Jesus a ressurreição dentre os mortos. o os prenderam, recolhendo-os ao cárcere até ao dia seguinte, pois já era tarde.  Muitos porém, dos que ouviram a palavra a aceitara, subindo o número de homens a quase cinco mil».[2]

O que acontece no dia seguinte? Lemos que muitos líderes Judeus, «autoridades, anciãos e escribas», se reuniram contra Pedro e João. Os líderes começaram a indagar com que poder ou com que credenciais Pedro e João curaram o coxo. Pedro respondeu-lhes com um grande discurso, e os líderes ficaram verdadeiramente maravilhados com a sua ousadia, visto que consideravam os Apóstolos «homens iletrados e incultos». Por que eles os percebem como «iletrados» e o que isso realmente significa?

A menção de Lucas de «autoridades, anciãos e escribas» provavelmente significa uma reunião do Sinédrio. Representantes desses três grupos compunham o chamado «Grande Tribunal». Nessa época, apesar da ocupação Romana, o Grande Sinédrio de Jerusalém ainda era a mais alta autoridade judicial, política e administrativa da Terra. Os Apóstolos presumivelmente estavam no centro da corte, os interrogadores membros do Sinédrio sentados ao redor deles.

A expressão Grega para «homens iletrados e incultos» aqui se refere ao termo Hebraico ám há-áretz, literalmente, «povo da terra». Este termo foi aplicado a Judeus iletrados, que não receberam treinamento sistemático na Bíblia ou nas tradições dos Fariseus ou Saduceus. Eles eram considerados ignorantes na Torá e negligentes na observância dos mandamentos. Os membros do Sinédrio podiam ver facilmente que esses Galileus eram ám há-áretz por causa de seu sotaque e vocabulário.

O povo Judeu sempre teve grande consideração pela educação, e educação geralmente significava educação em questões religiosas. Pouco seria esperado de um ám há-áretz inculto, muito menos discursos religiosos. Não admira que os líderes «ficaram maravilhados» e «não puderam dizer nada».[3] Temos que estar cientes das ideias Judaicas da época, a fim de reconhecer a novidade radical do Novo Testamento.

Estevão

A próxima pessoa que encontramos em Atos é Estevão. Estêvão é mencionado pela primeira vez em Atos 6 como um dos sete diáconos nomeados pelos Apóstolos para distribuir alimentos aos membros pobres da comunidade. Há aqui um detalhe interessante: uma vez que outro diácono, Nicolau de Antioquia, é especificamente chamado de «um prosélito», presume-se que Estevão era Judeu. Será que ele era mesmo? Podemos reunir algumas pistas de seu famoso discurso em Atos 7?

Estevão foi acusado de blasfemar ao declarar que Jesus destruiria o Templo e mudaria os costumes de Moisés. Ele foi levado ao Sinédrio e, quando questionado pelo Sumo Sacerdote, ele fez um longo discurso em resposta, recapitulando a história Judaica da época de Abraão. Alguns detalhes em seu discurso, entretanto, são notavelmente diferentes do texto bíblico tradicional. Por quê? Estevão não conhecia sua Bíblia?

Com base nas peculiaridades do discurso de Estevão, alguns estudiosos acreditam que Estevão era um Samaritano. Por exemplo, Estevão diz que Abraão foi para Canaã «quando seu pai estava morto». De acordo com a Torá, Terá tinha 70 anos quando Abraão nasceu e 205 quando morreu: ele morreu aos 205[4]; portanto, ele estava vivo e bem quando Abraão, aos 75 anos, obedeceu ao chamado de Deus. No entanto, no Pentateuco Samaritano, Terá morre aos 145, não aos 205, talvez este tenha sido o texto que Estevão usou!

As tensões entre Judeus e Samaritanos eram particularmente elevadas na primeira metade do século 1 d.C. Vocês provavelmente se lembram da famosa Parábola do Bom Samaritano, onde a própria aparência do Samaritano era absolutamente marcante para os ouvintes de Jesus, e o fato de este Samaritano provar ser um próximo, enquanto o sacerdote e o Levita falham, desafiou diretamente a interpretação Judaica contemporânea da palavra «próximo». Se Estêvão fosse realmente um Samaritano, teria sido um testemunho maravilhoso do poder unificador da mensagem de Jesus.

 

 

[1] Atos 3:12-14.

[2] Atos 4:1-4.

[3] Atos 4:13,14.

[4] Gênesis 11:26,32.

 

 

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About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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