O Contexto Judaico Da Última Semana De Jesus (2)

Da última vez, começamos a discutir a última semana de Jesus em um contexto Judaico. Já sabemos que Jesus teve que entrar em Jerusalém no dia 10 de Nisán —o mesmo dia em que o cordeiro perfeito deveria ser escolhido e separado—. Era domingo naquele ano, e o que havia acontecido entre aquele domingo e o domingo seguinte, 17 de Nisán? Vamos tentar fixar os eventos fundamentais desta semana nos dias da semana.

A Última Ceia

Os últimos dias de Jesus, assim como o dia e a data de sua crucificação, estão entre os tópicos mais debatidos ao longo da história do Novo Testamento. Muitos estudiosos respeitados comentaram sobre este tópico ao longo dos anos. «E a primeira pergunta: quando foi a Última Ceia?». A Última Ceia foi um séder —a refeição festiva que marca o início da Páscoa?—.

Claro, não afirmo ter as respostas finais, mas pessoalmente, não acho que tenha sido um séder. De acordo com a tradição Judaica, «um cordeiro pascal é inválido se for sacrificado por aqueles que não o comerão…». Um cordeiro pascal tinha que ser comido durante a refeição da Páscoa! A ingestão do sacrifício pascal era a parte principal do séder! Se o Novo Testamento apresenta Jesus como o cordeiro pascal, a refeição que aconteceu ANTES do sacrifício do cordeiro, por definição, não poderia ter sido um séder.

Então, qual era a natureza desta refeição? Pelos textos Judaicos, entendemos que no tempo de Jesus havia diferentes tradições festivas em diferentes lugares. Como todos sabemos, Jesus e seus discípulos eram Galileus, portanto teriam observado as tradições Galileias. Havia várias diferenças entre a observância da Páscoa Judaica e a da Galileia, mas a mais importante era um jejum especial —o Jejum dos Primogênitos—, em memória dos primogênitos Israelitas que foram salvos da morte (é por isso que lemos na Mishná que «na Galiléia, eles não trabalhavam de jeito nenhum» no dia da Páscoa). O jejum ocorria em 14 de Nisán, no dia da Páscoa.

Em Hebraico, a última refeição antes de um jejum é chamada seudá majséket  (por exemplo, seudá majséket antes de Yóm Kipúr, a última refeição antes do jejum de Yóm Kipúr, é um evento muito especial aqui). Assim, na tradição da Galileia, havia esta refeição especial no início de 14 de Nisán chamada seudá majséket. Após esta refeição, haveria um dia inteiro de jejum. A próxima refeição, após o sacrifício do cordeiro pascal, seria o séder. 

Vamos agora tentar descobrir os dias da semana em que tudo isso aconteceu. Na quarta-feira, 13 de Nisán, os discípulos prepararam esta refeição especial que chamamos de Última Ceia e que era, de fato, seudá majséket —a última refeição antes do Jejum dos Primogênitos—. Jesus e seus discípulos comeram esta refeição na quarta-feira à noite, quando o dia mudou para 14 de Nisán o dia do Pésaj —o dia do abate do cordeiro pascal—. Assim, na quinta-feira, 14 de Nisán, Jesus morreu na cruz; e no domingo, 17 de Nisán —a Festa das Primícias— Jesus ressuscitou.

 A lavagem dos pés

Em João 13, durante aquela Última Ceia, o próprio Jesus lava os pés de seus discípulos. Por que Ele fez isso? Era um costume Judaico? João 13 assume um significado ainda mais profundo quando entendido em seu contexto Judaico. 

O lava-pés era o primeiro ato ao entrar numa tenda ou casa depois de uma viagem. Normalmente, o anfitrião fornecia a água e os convidados lavavam os próprios pés. Às vezes, nas casas mais ricas, a lavagem era feita por escravos. Em Gênesis 18, quando três homens se aproximam de Abraão, ele lhes oferece água para lavar os pés. Com toda sua hospitalidade exemplar, Abraão não lavou os pés de seus convidados —provavelmente não era uma coisa apropriada a se fazer—. Em vez disso, ele disse: «Lavai os vossos pés» (rahzú).

Em Gênesis 18, vemos que não era costume o anfitrião lavar os pés de seus convidados. Assim, quando Jesus lavou os pés de seus discípulos, isso não poderia ser explicado como uma necessidade ou costume. João disse que Jesus «amou os seus até o fim»: ao lavar os pés deles, Ele exemplificou os componentes mais vitais da Nova Aliança —amor e humildade—. Esse ato, tão poderoso em si mesmo, torna-se ainda mais significativo quando visto no contexto Judaico, porque o que Jesus fez na última noite de sua vida foi muito além das ideias e costumes tradicionais.

Jesus comeu matzá?

Já sabemos que em Levítico 23, encontramos três festivais diferentes durante a celebração de uma semana que hoje chamamos de Páscoa. Jesus morreu no dia da Páscoa; Jesus ressuscitou dos mortos no dia das primícias; então ele perdeu a Festa dos Pães Asmos? Jesus comeu matzá?

Vocês se lembram, é claro, da bela história de Emaús, do último capítulo do Evangelho de Lucas, e da refeição que os dois discípulos tiveram com Jesus depois que «o constrangeram e ele entrou para ficar com eles»Lemos:

«E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o, e, tendo-o partido, lhes deu. Então se lhes abriram os olhos, e o reconheceram».

Compartilhar refeições sempre foi uma parte muito importante da vida da comunidade Judaica. No início da refeição, a bênção tradicional é sempre dita quando o pão é partido: «Barúj atá Adonái elohénu Mélej há-olám há-motzí léjem mín há-áretz» – «Bendito és tu, Senhor nosso Deus, Rei do Universo, que faz brotar o pão da terra». No Talmúd Babilônico, lemos: «O anfitrião deve partir o pão» (Berakoth 46). Na tradição Judaica, o anfitrião —o chefe da família— é aquele que sempre diz a bênção e parte o pão. Estranhos que são convidados para uma refeição geralmente esperam por instruções de seu anfitrião e recebem silenciosamente o que lhes é apresentado. No entanto, não é isso que vemos aqui!

Uma estranha peculiaridade marcou o comportamento deste convidado. Claramente, este não era um convidado comum! Em vez de esperar a orientação do anfitrião, este estranho toma o lugar do anfitrião: ele diz a bênção e parte o pão! Podemos imaginar que esse comportamento deve ter chamado a atenção de todos da casa. Se vocês estiverem interessados em ler mais sobre essa refeição e descobrir o que essa autoridade incomum significava, encaminhei para vocês o meu artigo neste blog: «Chave número quatro: Bênção do pão».

Lembrem-se, ainda era a semana da Páscoa. Em qualquer casa Judaica, só poderia haver matzá na mesa durante esta semana. A bênção da matzá teria sido acrescentada à bênção rotineira: «Bendito és tu, Senhor nosso Deus, Rei do Universo, que nos santificas por meio de teus mandamentos e nos ordenas a comer matzá» Em Emaús, Jesus participou de uma refeição Judaica regular de Jól Há-Moéd (Semana da Páscoa) e isso significa que, mesmo após sua ressurreição, Jesus ainda observava a festa bíblica dos Pães Asmos.

 

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About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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