Óleo De Alegria Para O Luto

Quem acompanha este blog há algum tempo já sabe que sou muito atenta e sensível a todas as «coincidências», principalmente quando se trata de tempo. É por isso que o fato de este artigo, o último artigo da série José, ser publicado poucos dias antes de Tishá B’Áv, o dia mais triste do calendário Judaico, me pareceu muito significativo desde o momento em que o percebi. Por um tempo, entretanto, embora eu tentasse entender a mensagem que tal coincidência transmitiria, eu não tinha visto a conexão. Mas então tudo ficou muito claro: sabemos que o Messias vem trazer «óleo de alegria para o luto» e isso é o que vemos tanto na saga de José quanto na dramática história de Tishá B’Áv.

O que é Tishá B’Áv?

No Judaísmo, Tishá B’Áv (Hebraico: תשעה באב), «o nono dia de Áv», é um dia de jejum anual. É o nono dia (Tishá) do mês de Áv, daí o nome. Originalmente, o jejum de Tishá B’Áv comemorava a destruição dos Templos em Jerusalém, tanto o Primeiro Templo quanto o Segundo Templo em Jerusalém foram destruídos na mesma data no calendário Hebraico (com cerca de 500 anos de diferença). O Primeiro Templo, construído pelo Rei Salomão, foi destruído por Nabucodonosor em 586 a.C. De acordo com o Talmúd, a destruição real do Templo começou no dia 9 de Áv, e o Templo continuou a arder durante todo o dia 10 de Áv. O Segundo Templo foi destruído pelos Romanos em 70 d.C., também em Tishá B’Áv. Com o tempo, no entanto, Tishá B’Áv se tornou um dia de luto Judaico não apenas por esses eventos, mas também por calamidades posteriores que ocorreram neste dia ou por volta deste dia (vocês podem facilmente encontrar online a lista dessas calamidades).

Por que este dia específico? Na Torá, lemos que doze espias foram enviados por Moisés para explorar a terra de Canaã. Apenas dois deles, Josué e Calebe, trouxeram um relatório positivo, enquanto os outros desencorajaram o povo. Como resultado, o povo de Israel chorou e se recusou a entrar na Terra. Deus estava zangado com o povo. Ele os puniu: «todos esses homens que… não deram ouvidos à Minha voz… não verão a terra».

A tradição Judaica adiciona alguns detalhes a esta história. Quando lemos: «…o povo chorou naquela noite», o Talmúd desenvolve: «O Santo, Bendito seja Ele, disse-lhes: “chorastes desnecessariamente naquela noite e, portanto, estabelecerei para vós uma verdadeira tragédia sobre a qual haverá choro nas gerações futuras. Aquela noite foi a noite do dia 9 de Av”» – Tishá B’Áv.

Assim, Tishá B’Áv é o dia mais triste do calendário Judaico. Ainda assim, a Escritura fala sobre o jejum de Tishá B’Áv («o jejum do quinto mês»), eventualmente sendo transformado em um dia de alegria com a vinda do Messias. Há uma profunda crença Judaica de que quando o Messias vier, tudo será consertado e todas as coisas ruins serão revertidas (até um porco se tornará kósher e os Judeus terão permissão para comer carne de porco). Esta é uma tradição rabínica, mas é claro, é baseada nas Escrituras. Vejam este versículo de Zacarias:

«Assim diz o Senhor dos Exércitos: “O jejum do quarto mês,
e o do quinto,
e o do sétimo,
e o do décimo
será para a casa de Judá regozijo, alegria,
e festividades solenes”».[1]

Zacarias fala sobre o jejum de Tishá B’Áv («o jejum do quinto mês») sendo eventualmente transformado em um dia de alegria com a vinda do Messias. Não é a mesma alegria que vemos na história de José?

A saga final de José

Da última vez, testemunhamos a revista. A taça fora encontrada no saco de Benjamin. Suponho que vocês entendam que isso em si foi um teste. Por mais difícil e doloroso que fosse para Benjamin, essa história não era sobre ele, mas sobre seus irmãos. Teoricamente, dez irmãos poderiam ter ido para casa, eles eram absolutamente livres para fazer isso, o mordomo foi muito claro: «aquele com quem se achar será meu escravo, porém vós sereis inculpados».[2] Além disso, eles tinham uma boa desculpa: suas famílias estavam morrendo de fome e eles realmente tinham que levar comida para eles. Então todos eles poderiam ter deixado Benjamin e ido para casa, e posso imaginar José sentado em seu palácio, quase roendo as unhas, esperando para ver quem voltaria: apenas Benjamin, ou todos os irmãos? Ele ficou muito aliviado ao ver que todos voltaram: o fato de todos terem voltado já era um bom sinal: os irmãos haviam passado no teste.

Sim, todos eles voltaram para José, e foi o início de seu caminho de volta para Deus. As Escrituras não nos dizem o que estava acontecendo por dentro dos irmãos nesta viagem de volta. Só sabemos que quem inicia este caminho com roupa rasgada chega ao fim… com coração rasgado. E a partir de agora, esta história se torna a história de Judá e seus irmãos: «E chegou Judá com seus irmãos à casa de José; este ainda estava ali; e prostraram-se em terra diante dele».

Vocês sabem onde na Bíblia temos a mesma expressão: «Judá e seus irmãos?». Quando iniciamos o Novo Testamento, lemos em Mateus: «Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacó e Jacó gerou Judá e seus irmãos». Judá e seus irmãos, é assim que as Escrituras veem esta parte da história. Por quê? Para responder a esta pergunta, precisamos relembrar a história de Judá e Tamar e do arrependimento e confissão de Judá ali: temos que lembrar que o Judá que vem ao Egito e fala com José não é o mesmo Judá que vimos no Capítulo 37, na história da venda de José. Este Judá viveu a terrível tragédia de perder dois filhos, passou por profundo arrependimento e transformação na história com Tamar e por isso, ele agora tem um coração quebrantado e humilde. Portanto, é ele quem está falando agora: «Então disse Judá: “Que responderemos ao meu senhor?  que falaremos? e como nos justificaremos?”».[3]

«Que responderemos? Que falaremos? e como nos justificaremos?». A essa altura, os irmãos certamente haviam entendido que o que estava acontecendo com eles era entre eles e Deus. Eles não tinham como se justificar. O Espírito de Deus estava agindo por trás de toda essa cena, tocando seus corações e Ele mesmo conduzindo o diálogo com eles. Embora não fossem culpados desse crime em particular, sob a liderança de Judá, eles aceitaram a condenação e o castigo daquele diante de quem há muito pecaram terrivelmente. Judá continua: «Achou Deus  a iniquidade de teus servos». Em Hebraico não é, «descobriu», ao contrário, é apenas «encontrou» – מצא – como se verdadeiramente todos esses anos eles estivessem brincando de esconde-esconde, como se tivessem escondido seu crime de Deus e, finalmente, depois de todos esses jogos de quente e frio, Deus o encontrou! Ele os convenceu de seus pecados e os culpou. E embora, a princípio, eles se considerassem inocentes em relação a este pecado específico, ao abrirem seus corações aos raios da luz de Deus, sua confissão se tornou profunda e real. Essas palavras de Judá abrem uma das mais belas histórias de arrependimento e alegria que vem depois disso.

O que acontece depois? Quando lemos a Bíblia em Inglês, toda a história dos irmãos retornando a José após o «roubo» de Benjamin —sua fala, seu arrependimento e, em seguida, José revelando sua identidade— parece uma história ininterrupta. No entanto, não é assim em Hebraico. A Torá Hebraica, junto com as divisões dos capítulos, também tem divisões em porções da Torá (Parashát Shavúa) e a Parashát Shavúa Mikétz termina repentinamente no meio do Capítulo 44, para dar lugar a uma nova Parashá, Vayigásh. Há uma linha pontilhada invisível, uma pausa, significando que algo muito importante está para acontecer. Então a próxima porção da Torá, Vayigásh, começa com as palavras: «Então Judá se aproximou dele…». Este movimento de Judá mostra-se crucial: é depois de seu discurso que José se revela a seus irmãos.

A Torá diz: «José não se conteve… (להתאפק) e chorou alto…».[4] ¿Vocês se lembram como testemunhamos José chorando secretamente no quarto interior, e então se contendo: «ele entrou em seu quarto e chorou lá. Então ele lavou o rosto e saiu; e ele se conteve… (» (ויתאפק)[5]. Agora testemunhamos a surpreendente conclusão desta história quando «José não conseguiu se conter… (להתאפק)». A palavra traduzida como «ele se conteve» é a palavra Hebraica להתאפק, significando se «conter» ou «se controlar». As lágrimas de amor que estão contidas e escondidas na sala interior agora são totalmente reveladas quando «José não conseguia mais se conter». O final da saga de José prenuncia a mesma alegria que o profeta fala ao referir-se a Tishá B’Áv – a alegria do reconhecimento, de coisas sendo revertidas e transformadas, de misericórdia e graça respondendo ao arrependimento e às lágrimas. A alegria da vinda do Messias!

 

[1] Zacarías 8:19.

[2] Gênesis 44:10.

[3] Gênesis 44:16.

[4] Gênesis 45:1-2.

[5] Gênesis 43:30-31.

 

Trechos de meus livros estão incluídos neste artigo (e muitos outros posts aqui), então se vocês gostam dos artigos neste blog, vocês podem gostar também dos meus livros, vocês podem obtê-los aquí. Além disso, eu gostaria de lembrar a vocês, que oferecemos cursos maravilhosos, e os interessados em estudar em profundidade a Parashát Shavúa, juntamente com os conhecimentos do Novo Testamento, ou descobrir os tesouros escondidos da Bíblia Hebraica, são bem-vindos em contatar-me (juliab@eteachergroup.com) para mais informações e para o desconto (para os novos alunos).

 

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

You might also be interested in:

De Jerusalém A Roma (2): A...

Por Julia Blum

De Jerusalém A Roma (1)

Por Julia Blum

Join the conversation (No comments yet)

Deixe uma resposta