Perdido Na Tradução: Conectando O Céu E A Terra

Três orações

Vocês devem lembrar-se que no final da última porção, Toledót, Isaque enviou Jacó a Padã-Arã para tomar uma esposa de lá. Isso aconteceu depois da história da «bênção roubada», a bênção que Jacó recebeu de Isaque enquanto fingia ser Esaú. Na verdade, Jacó estava fugindo da ira de seu irmão. A caminho de Harã, assustado e exausto, Jacó parou em um certo lugar para descansar durante a noite: «Tendo chegado a certo lugar, ali passou a noite, poisjá era sol-posto».[1] Ele não sabia então, mas esta pausa iria afetar inúmeras gerações futuras, porque, de acordo com a tradição Judaica, esta foi a instituição da nossa oração noturna.

Vocês devem saber que há três orações Judaicas diárias: oração da manhã – shajarít; oração da tarde – minjá; e oração da noite – maarív. O Talmúd encontra as raízes dessas orações na Torá. Assim, Abraão instituiu a oração matinal: três vezes na história de Abraão, lemos que Abraão se levantou cedo: quando estava se perguntando o que teria acontecido com Ló;[2] cuando estaba cumpliendo el mandato de Dios de despedir a Ismael;[3] e quando ele estava indo sacrificar Isaque. Cada uma dessas vezes, ele foi dominado pela angústia, dor e perguntas e cada uma dessas vezes, ele se levantava cedo para orar e abrir seu coração diante de Deus! Isaque instituiu a oração da tarde quando «saiu para meditar no campo ao entardecer».[4] A palavra traduzida como «meditar» aqui também pode significar oração. Ele orou por sua noiva? Em caso afirmativo, sua oração foi atendida rapidamente, pois é logo após esta oração que ele viu sua noiva, «amou-a e encontrou consolo após a morte de sua mãe». Assim, diz-se que a oração da tarde, minjá, remonta a Isaque.

Por fim, Jacó instituiu a oração da noite, como acabamos de ler: «Tendo chegado a certo lugar, ali passou a noite, pois já era sol-posto».[5] Desde então, o povo Judeu tem buscado a Deus na oração da noite, maarív, uma vez que um dos encontros mais conhecidos com Deus aconteceu ali e então: «E sonhou: “Eis posta na terra uma escada, cujo topo atingia o céu”».

Primeiro para cima, depois para baixo

Lemos que «os anjos de Deus subiam e desciam» esta escada. Houve muitas interpretações deste sonho na tradição Judaica, e uma das perguntas feitas dizia respeito à ordem: Por que os anjos, os habitantes do céu, primeiro subiam e só depois desciam a escada?

Um famoso comentarista Judeu medieval Rashi explica: A experiência de um homem em sua própria terra é diferente de sua experiência em um país estranho. Aonde quer que fosse, Jacó sempre recebia proteção divina, mas em solo estrangeiro, ele precisava de guardiões diferentes. Os anjos que acompanharam Jacó na terra santa não saíram dessa terra e, portanto, tiveram que ascender ao céu; em seguida, outro grupo de anjos desceu para acompanhá-lo fora da terra santa.

É interessante que bem no final da nossa porção, quando Jacó retorna à terra, ouvimos mais uma vez sobre dois grupos de anjos. Há um detalhe intrigante aqui que pode ser visto apenas no Hebraico: quando Jacó viu os anjos, «ele disse: “Este é o acampamento de Deus”. E chamou aquele lugar de Mahanáyim».[6] Se vocês sabem um pouco de Hebraico, reconheceriam que, na verdade, Jacó chamou este lugar de «dois acampamentos», já que Mahanáyim é uma construção dupla da palavra mahané (acampamento). Talvez, Jacó realmente tenha visto dois grupos de anjos exatamente como em seu sonho: o acampamento dos anjos fora da terra, que veio com ele até este ponto, e o acampamento dos anjos de Israel, que vieram para saudá-lo. Mahanáyim significa «Dois acampamentos», e este breve relato se encaixa perfeitamente com a abordagem de Rashi!

Interpretações interessantes do sonho de Jacó são baseadas na gematria, um método interpretativo Judaico que atribui um valor numérico a um nome ou palavra Hebraica com base nos valores numéricos de suas letras. O valor numérico da palavra sulám (escada em Hebraico) é 130: סֻלָּם(sámej-lámed-mém = 60 + 30 + 40). Surpreendentemente, 130 também é o valor da palavra Sinaiסיני  (sámej-yód-nún-yód = 60-10-50-10). Assim, de acordo com a gematria, a escada de Jacó simboliza a entrega da Torá no monte Sinai.

Amor para todas as idades

A história do amor de Jacó e Raquel é uma das mais belas histórias de romance da Bíblia. Ao ler uma descrição muito ilustrada de seu primeiro encontro no poço, um leitor Cristão geralmente imagina um jovem que fica tão animado ao ver esta linda moça que, sozinho, rolou a pedra que vários homens deveriam rolar juntos: «…quando Jacó viu Raquel, filha de Labão, irmão de sua mãe… Jacó se aproximou e rolou a pedra da boca do poço».[7]  No entanto, na tradição Judaica, encontramos uma imagem muito diferente. Quantos anos Jacó tinha quando se apaixonou por Raquel? Vamos começar do fim. Jacó tinha 130 anos quando veio ao Egito.[8] Quantos anos tinha José então? José tinha 30 anos «quando se apresentou ao Faraó».[9] Restaram 5 anos de fome quando José chamou Jacó ao Egito[10], lo que significa que José tinha 30 + 7 + (7-5) = 39 anos quando Jacó veio ao Egito com 130 anos. Assim, Jacó tinha 91 anos quando gerou José (de fato, «um filho da sua velhice).[11]

Em Padã-Arã, depois que José nasceu, Jacó pediu a Labão que o deixasse ir. Ele não foi embora naquela época, mas passou um total de 20 anos com Labão: 14 anos por suas esposas e 6 por suas ovelhas e gado.[12]

Depois que José nasceu, ele ficou por mais 6 anos. Isso implicaria que Jacó veio a Padã-Arã e viu Raquel pela primeira vez, quando ele tinha 91-14 = 77 anos.

O conceito Bíblico de idade difere significativamente de nosso entendimento moderno, e a história de Jacó, de 77 anos, se apaixonando por Raquel prova isso. Em Hebraico, a idade de uma pessoa é expressa de uma forma muito peculiar: para dizer que José tinha 30 anos, a Escritura diz literalmente que «José era filho de trinta anos». Jacó era «filho de 77» quando conheceu Raquel!

O Juramento trágico

Em Gênesis 31, após longos anos servindo a Labão, Jacó decide voltar para casa. Quando ele sai, sua esposa Raquel rouba os ídolos de seu paiLabão alcança Jacó e o acusa de roubo. Jacó, sem saber do roubo de sua esposa, convida Labão para fazer uma busca em todo o acampamento. Labão vasculha as tendas, mas não encontra seus ídolos, que Raquel escondeu sentando-se sobre eles. Assim, a história parecia terminar favoravelmente. Mas é realmente o fim?

Pouco depois de chegar a terra, Raquel, ainda jovem, morre inesperadamente durante o parto. A maioria dos leitores não vê nenhuma conexão entre esta morte e a busca de Labão no Capítulo 31. Mesmo assim, os comentaristas Judeus conectam esse trágico evento ao juramento de Jacó a Labão: «Não viva aquele com quem achares os teus deuses».[13] Este juramento foi cumprido, não por Labão, mas pelo próprio Deus; além disso, o Hebraico mostra que Jacó e Raquel também perceberam essa conexão. O nome que a mãe moribunda dá ao seu filho, Bén-Óni, provavelmente significa «o filho da minha iniquidade» (שלי און, «meu mal»). Compreensivelmente, Jacó não queria que a criança carregasse este nome, portanto, ele o chamou de Benjamin, «filho da mão direita», o que também pode ser interpretado como «filho do juramento», visto que a mão direita na Bíblia muitas vezes simboliza um juramento.

As Escrituras nos falam sobre as leis do mundo espiritual. Invisíveis e frequentemente ignoradas, elas são, no entanto, tão invioláveis quanto a lei da gravidade. É por isso que o juramento emocional de Jacó termina com a trágica morte de sua amada esposa. A conexão se perde na tradução, mas as Escrituras Hebraicas deixam isto muito claro.

 

 

As percepções que vocês leem nessas páginas são típicas do que compartilhamos com nossos alunos durante as aulas DHB (Discovering the Hebrew Bible/Descobrindo a Bíblia Hebraica) ou WTP (Weekly Torah Portion/Porção Semanal da Torá). Se esses artigos despertarem seu interesse por descobrir os tesouros escondidos da Bíblia Hebraica, ou estudar em profundidade a Parashát Shavúa, junto com os conhecimentos do Novo Testamentoficaria feliz em fornecer mais informações (e também um desconto de professor para os novos alunos) em relação aos maravilhosos cursos da 
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[1] Gênesis 28:11.

[2] Gênesis 19:27.

[3] Gênesis 21:14.

[4] Gênesis 24:63.

[5] Gênesis. 28:11.

[6] Gênesis 32:2.

[7] Gênesis 29:10.

[8] Gênesis 47:9.

[9] Gênesis 41:46.

[10] Gênesis 45:6,11.

[11] Gênesis 37:3.

[12] Gênesis 31:41.

[13] Gênesis 31:32.

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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