Sucót No Novo Testamento

Como os Judeus celebravam o Sucót no tempo de Jesus? Hoje, vamos falar sobre a Festa dos Tabernáculos que Jesus veio celebrar em Jerusalém há quase 2.000 anos. Aprenderemos algumas coisas novas sobre Sucót ao longo do caminho.

A água e a luz

Em João 7, ouvimos as famosas palavras de Jesus: «…do seu interior fluirão rios de água viva…».[1]  Os Cristãos sempre entenderam essas palavras apenas como uma metáfora espiritual, falando sobre o espírito de Deus, dado àqueles que acreditam em Jesus. No entanto, se vocês já estiveram em Israel antes e durante o Sucót, vocês sabem por que Jesus falou sobre a água neste momento específico.  

Quando vocês começam o texto da Amidá —oração Judaica tradicional— vocês verão uma clara diferença entre o que dizemos no outono e no inverno (entre Sucót e Páscoa) e o que dizemos na primavera e verão (entre Páscoa e Sucót). No inverno dizemos: «Ele faz o vento soprar e a chuva cair». No verão, dizemos: «Ele faz cair o orvalho». O motivo dessa diferença é muito simples: em Israel, não chove no verão. Como vocês podem imaginar, no final do verão tudo ao redor está seco e marrom e clama por água —é por isso que sempre esperamos o Sucót, o início da estação das chuvas em Israel—. Na verdade, é sempre maravilhoso ver como o relógio de Deus é preciso: acabamos de ter nossa primeira chuva aqui!

Era a mesma coisa na época de Jesus, por isso, nos dias do Segundo Templo, o auge da alegria do festival era a cerimônia da libação com água. Acredita-se que no Sucót, o julgamento é feito com relação às chuvas, e a libação de água era realizada para invocar a bênção de Deus nas chuvas do ano. Durante a cerimônia, uma grande procissão carregando água passava por Jerusalém e circundava o Templo, e então a água era derramada no altar.

Os sábios de Israel testemunham as celebrações da libação de água desde os dias do Segundo Templo. A descrição dessa cerimônia pode ser encontrada na Mishná, que nos diz que um jarro de ouro era enchido com água por um Cóhen e levado ao Templo. Mesmo que a cerimônia de libação de água não seja mencionada especificamente na Torá, Rashi explica que era o cumprimento do versículo de Isaías: «vós com alegria tirareis águas das fontes da salvação».[2]

Jesus usa as imagens desta celebração para ilustrar suas palavras. É no contexto desta celebração, enquanto se realizava a procissão com água em Jerusalém, que Jesus pronuncia as suas famosas palavras sobre a «água viva». Também sabemos que durante esta cerimônia, as lâmpadas eram acesas no pátio do Templo como um sinal das festividades. É neste contexto, enquanto toda Jerusalém resplandecia com a luz do Templo, que Jesus fala da luz: «Eu sou a luz do mundo»Uma vez que entendemos o contexto histórico das palavras de Jesus, a verdade espiritual dessas palavras se torna ainda mais clara e profunda.

O ilustre convidado

Jesus observou o Sucót? Vocês provavelmente sabem que o Sucót era uma das três festas durante as quais todo homem Judeu tinha que ir a Jerusalém para adorar, então, é claro, Jesus teria cumprido o mandamento e ido para Jerusalém; contudo, em João 7, quando seus irmãos tentaram convencê-lo a subir a Jerusalém para celebrar o Sucót, ele respondeu: «O meu tempo ainda não chegou».[3] «Mas, depois que seus irmãos subiram para a festa, então subiu Ele também, não publicamente, mas em oculto».[4] ¿Por que Jesus foi «em oculto»?

Eu acredito que, antes de mais nada, tinha a ver com Jesus sendo, neste ponto, o «Messias Oculto». Seus irmãos estão praticamente dizendo a ele: «Revele-se! Se você faz essas coisas, mostre-se ao mundo».[5] Sua resposta apenas confirma seu «status secreto»: «Meu tempo ainda não chegou»Acho que este é um daqueles momentos cruciais nos evangelhos em que vemos claramente Jesus ainda ocultando sua identidade messiânica.

No entanto, há uma explicação possível adicional para esta história. Um dos aspectos mais importantes de Sucót sempre foi convidar pessoas para a sucá (cabana). O acolhimento dos hóspedes em Sucót é especialmente significativo, uma vez que a sucá representa e reflete de muitas maneiras a tenda de Abraão, e a tradição Judaica deriva o mitzvá da hospitalidade de Abraão (Gênesis 18). Mesmo que as pessoas convidem pessoas para as noites intermediárias desta festa de uma semana, a noite mais festiva e importante era a primeira noite —a véspera de Sucót—.

Por ser um Rabino, provavelmente Jesus seria convidado para esta noite especial por várias pessoas e, inevitavelmente, teria que recusar alguns convites. Portanto, quando ele diz a seus irmãos: «Eu ainda não vou para esta festa»[6] a ênfase está em «ainda» —ele ainda não vai—. Ele estará viajando no último minuto e incógnito porque não fez sua aparição pública e foi «por assim dizer em oculto». Ele queria celebrar o Sucót com alguém que fosse especialmente próximo a seu coração.

Vamos fazer tendas

Há outra história no Novo Testamento que envolve tendas. Uma das histórias mais incríveis dos evangelhos é a história da transfiguração. Todos os evangelhos sinóticos descrevem Jesus indo para a montanha e sendo transfigurado lá: brilhando «como o sol» e conversando com Moisés e Elias. Toda a cena apresenta uma bela imagem da glória celestial. E qual é a reação dos apóstolos ao testemunharem essa cena? De repente, Pedro sugere que construam tendas: «Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas: uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias»Que sugestão estranha e inesperada! De onde veio?

Todos nós sabemos que tendas (sucót) são essas pequenas cabanas que os Judeus são ordenados a construir em Sucót para lembrar aquelas cabanas em que viviam no deserto quando Deus os tirou do Egito. No entanto, como escrevi da última vez, de acordo com a tradição Judaica, apenas em Sucót essas cabanas feitas à mão estavam cobertas com nuvens divinas. É por isso que a sucá se tornou um símbolo tão poderoso da presença divina! Quando Pedro se ofereceu para construir sucót, creio que ele estava se referindo a este símbolo tradicional como uma forma de expressar a glória da presença de Deus que ele estava experimentando. Muitos detalhes nos evangelhos tornam-se claros quando vistos através das lentes do Judaísmo do primeiro século e, sem dúvida, este é um destes detalhes.

 

[1] João 7:38.

[2] Isaías 12:3.

[3] João 7:6.

[4] João 7:10.

[5] João 7:4.

[6] João 7:8.

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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