A Última Ceia E O Sinal De Jonas (ii)

A natureza precisa da última refeição que Jesus compartilhou com seus discípulos, bem como o dia e a data de Sua crucificação, tem estado entre os temas mais debatidos ao longo da história do Novo Testamento. Em meu último post, discuti o entendimento tradicional da história: A Última Ceia foi realmente a refeição da Páscoa (Seder) que aconteceu na noite de Quinta-feira, e na Sexta-feira, Jesus foi crucificado. Esta perspectiva parece ser apoiada pelos Evangelhos Sinóticos. No entanto, há um problema bem conhecido de discrepância entre os Evangelhos sinóticos e o Evangelho de João, que aparentemente data todos esses eventos um dia antes do que os Sinóticos. Numerosas tentativas foram feitas para harmonizar todos os Evangelhos, em particular com a ajuda do conceito de ‘diferentes calendários’: se diferentes calendários estavam em uso, então os dias de festa foram calculados diferentemente por grupos diferentes. Em primeiro lugar, os estudiosos distinguiram entre a data da Páscoa dos Fariseus e a data dos Saduceus um dia antes, o que pode estar por trás do Evangelho de João. Ainda mais evidências apontam para o fato de que os Essênios também usavam seu próprio calendário. A famosa história do homem com um jarro de água[1] é baseada em que: um homem que transportava água só poderia ter sido um Essênio; os Essênios tinham suas comunidades em várias cidades, e também em Jerusalém, e como eles usavam um calendário diferente, seus quartos de hóspedes ainda estavam disponíveis. É por isso que Jesus sabia que um quarto estaria disponível para a Última Ceia –e Ele também pode ter seguido o calendário deles–.

Hoje vamos discutir os cenários alternativos. Mais uma vez, gostaria de enfatizar que eu não pretendo ter as respostas finais, ninguém pode estar cem por cento certo como e quando exatamente esses eventos ocorreram, no entanto, não temos que tropeçar nesta história: há vários cenários plausíveis apresentando os últimos dias de Jesus. Além disso, mesmo que eu compartilhe com vocês algumas idéias Hebraicas aqui, eu ainda quero que nos lembremos que há sempre a possibilidade de que estejamos perdendo alguma coisa.  “As coisas secretas pertencem ao Senhor”…[2]

 

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Pessoalmente, eu não acho que foi a refeição tradicional da Páscoa. Por quê? Em primeiro lugar, como já mencionei, sempre fiquei perplexa com o fato de que quando Judas saiu  no meio da Última Ceia “alguns pensaram,  porque Judas tinha a bolsa de dinheiro, que Jesus  tinha dito a ele: “Compre o que  precisamos para a festa[3]. Em  Israel hoje, tudo estaria fechado durante a Festa, mas mesmo que algo estivesse aberto, nenhum Judeu devoto pensaria em comprar algo com o dinheiro no dia da Festa. No entanto, o argumento mais importante, creio eu, é encontrado em uma regra na Mishnah:

Um cordeiro pascal não é válido se for abatido por aqueles que não o comerão… [4]

O cordeiro pascal tinha de ser comido durante a refeição da Páscoa. Comer do sacrifício pascal era a parte principal do Seder e, consequentemente, a refeição que aconteceu ANTES do sacrifício, por definição, não poderia ter sido o Seder.

No entanto, se não era o Seder, o que era? Qual era a natureza dessa refeição? Antes de começar nosso diálogo, deixe-me compartilhar com vocês algumas citações adicionais da Mishna, do mesmo tratado Pesachim:

Os sábios dizem que em Judá eles trabalhariam no dia antes do Pesacĥ até o meio-dia, enquanto que na Galiléia eles não trabalhavam o dia todo. Na medida em que a noite [anterior] esteja envolvida: Bet Shammai proibe enquanto Bet Hillel permite até o nascer do sol.[5]

Onde é costume trabalhar até o meio-dia do dia anterior à Páscoa, as pessoas podem trabalhar; onde não é costume fazer isso, as pessoas não podem. Quando alguém vai de um lugar onde se trabalha para um lugar onde não se trabalha (ou de um lugar onde não se trabalha para um lugar onde se trabalha), aplicamos as restrições mais severas tanto do lugar de onde se vem como do lugar para onde se  vai…[6]

Vemos que havia tradições diferentes das festas em lugares diferentes. Como todos sabemos, Jesus e seus discípulos eram Galileus, portanto eles teriam observado as tradições da Galileia. Existiam várias diferenças entre a observância da Páscoa na Judéia e na Galileia, mas a mais importante era  um jejum especial –o Jejum dos Primogênitos–, em memória dos primogênitos Israelitas que foram salvos da morte (por isso lemos na Mishna que “na Galileia eles não trabalhavam o dia todo”, no dia da Páscoa). O jejum acontecia no dia 14 de Nisan, no dia da Páscoa.[7]

Em Hebraico, a última refeição antes do jejum é chamada seudah maphsehket (se vocês já estiveram em Israel para o Yom Kippur, devem saber que seudah maphsehket, a última refeição antes do jejum do Yom Kippur, é um evento muito especial). Assim, na tradição da Galileia, tinha que haver essa refeição especial no início da Páscoa (dia 14 de Nisan) chamada seudah maphsehket. Depois desta refeição, haveria um jejum de um dia inteiro –e a próxima refeição seria a refeição da Páscoa, o Seder–. Neste sentido, esta refeição era de fato a Última Ceia[8]

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Vamos agora tentar descobrir os dias da semana em que tudo isso estava acontecendo. Definitivamente vamos precisar aqui do sinal de Jonas, porque não há dúvida de que não podemos ter três dias e noites completos a partir das 15h de Sexta-feira até as primeiras horas do Domingo. Domingo é um dado, assim para torná-lo fácil, vamos apenas contar três noites de volta e chegar na Quinta-feira, e então todo o resto se acerta no lugar. Foi na Quarta-feira dia 13 de Nisan que os discípulos prepararam esta refeição especial que chamamos a Última Ceia e que foi, de fato, seudah maphsehket –a última refeição antes do Jejum dos Primogênitos–. Jesus e os discípulos comeram esta refeição na noite de Quarta-feira, no início da Páscoa, uma vez que  o dia mudou para dia 14 de  Nisan. Então Jesus foi preso à noite, julgado e condenado no início da manhã de Quinta-feira, e depois crucificado durante o dia –e tudo isso aconteceu durante o dia da Páscoa, dia 14 de  Nisan, Quinta-feira–. Assim, na Quinta-feira, dia 14 de Nisan, Jesus morreu na cruz; e no Domingo, dia 17 de Nisan –na Festa dos Primeiros Frutos–[9] Jesus foi ressuscitado.

Gostaria de terminar este artigo com as palavras de um estudo maravilhoso de L. Piperov: “A crucificação no dia 14 de Nisan, Quinta-feira, seguida do Dia da Ressurreição, no Domingo de manhã, no dia 17 de Nisan, seria uma confirmação incrível das próprias palavras proféticas do Senhor Jesus baseadas no profeta Jonas (Jonas 1:17):

Porque assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um enorme peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra (Mateus 12:40; NVI).

Note que o Senhor Jesus disse dias e noites, não noites e dias! Na verdade, a prisão na noite de quarta-feira, seguida pela terrível provação, incluindo julgamento/humilhação/crucificação e morte e enterro antes do pôr do sol no dia seguinte, Quinta-feira (Dia Um no coração da terra) e Ressurreição pouco antes do amanhecer no Domingo, correspondem precisamente a estas palavras”.[10]

[1] Marcos 14:13

[2] Deuteronômio 29:29

[3] João 13:29

[4] Mishna, Tratado Pesachim, Capítulo 5 Mishna 3

[5] Mishna, Tratado Pesachim, Capítulo 4 Mishna 5

[6] Mishna, Pesachim, Capítulo 4, Mishna 1

[7] Vocês podem ler mais sobre isso em:  David H. Stern, Jewish New Testament Commentary, ­ Jewish New Testament Publications, 1995, p. 77

[8] Sou grata a Tom Bradford do TorahClass.com por esta idéia.

[9] Levítico 23:10

[10] Lyuben Piperov, A Tale of Two Gospels, p.22; este estudo sobre os códigos da Bíblia também confirma Quinta-feira, 14 de Nisan como o dia da Crucificação.

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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  1. Joao

    Gostaria de perguntar sobre o gran sabat, que faria com o sábado religioso e o civil fossem ligados um ao outro. Isso faria realmente que Déia fosse na quarta à noite.
    Em João, e dito que aquele sábado era grande. E ao que me consta, em mateus, diz no original grego, ao findar dos sábados, ao falar que as mulheres iam ao sepulcro

    1. Eric de Jesús Rodríguez Mendoza

      BS”D

      Eu sou da opiniao que o dia da morte de Jesus foi na quarta, na noite 🙂 https://www.youtube.com/watch?v=nddC-xoPguU&t=1s

  2. Antonio

    considerando as muitas dúvidas geradas em torno do versículo 6 do capitulo 7 do evangelho de mateus solicito se alguém pode nos esclarecer o que Jesus quis ensinar quando falou de coisas santas aos cães e pérolas aos porcos.

  3. jair

    Impressionante. Para a maioria dos cristãos que pensam que Jesus foi crucificado na 6ª Feira, o artigo acima pode soar um tanto lastimável por crerem erroneamente; mas, se é A Verdade, que assim seja !!! Deus é Justo, Santo e Bom e nos ensina todo Bem da Sua Palavra Fiel !!!.

  4. Lindauva Batista Pereira Riberi

    Muito obrigada.
    Ha anos tento entender essas datas.
    Então o que chamam de domingo de “pascoa” seria melhor chamar domingo da ressurreição?

    1. Eric de Jesús Rodríguez Mendoza

      BS”D

      Mas exactamente, Domingo do ‘Omer Re’shit: O ‘Omer que contene a primícia das primícias (re’shit).