Visível E Invisível

O tão esperado encontro   

Continuamos nossa jornada por esta emocionante e apaixonante história da Bíblia: a história de José e seus irmãos. O dia finalmente chegou, o momento tão esperado chegou quando os irmãos de José vêm ao Egito e se colocam diante dele, os dez irmãos que quase o mataram, mas tiveram pena dele o suficiente para vendê-lo. Vocês já consideraram o fato de que, embora muitos anos tenham se passado e tantas coisas tenham acontecido com José, a reconciliação dos irmãos ainda é o ponto principal desta narrativa? José é Vice-Rei do Egito, com uma carreira brilhante e uma família maravilhosa, mas o encontro com seus irmãos ainda é extremamente importante para ele! Antes de mais nada, isto não indica que é extremamente importante para Deus? Vimos algo semelhante na história de Jacó: Jacó passou vinte anos no exílio, tantas coisas aconteceram e mudaram em sua vida, e ainda assim seu encontro e reconciliação com seu irmão gêmeo Esaú eram tão importantes aos olhos de Deus que Deus veio a Jacó um pouco antes deste encontro. Sim, o encontro mais importante da vida de Jacó, aquele que definiu o seu nome e destino e o nome e destino de todo o povo —Peniel— aconteceu logo antes de seu encontro com Esaú (e sem dúvida mudou este encontro de como poderia ter sido, para a incrível história que realmente temos na Bíblia). Algo sobre a reconciliação dos irmãos é de vital importância aos olhos de Deus: podemos ver isso claramente na vida de Jacó e, ainda mais claramente, podemos ver na história de José.

Então, os irmãos vieram. Eles se curvaram diante de José, o Vice-Rei do Egito, exatamente como foi predito em seus sonhos e ele os reconheceu. No entanto, eles não perceberam que este Vice-Rei Egípcio era o irmão que eles haviam vendido cerca de vinte e dois anos antes: «E os irmãos de José vieram e se prostraram rosto em terra, perante ele. Vendo José a seus irmãos, reconheceu-os, porém não se deu a conhecer, e lhes falou asperamente».[1]

Claro, esta história é incrível mesmo na tradução, no entanto, quando a lemos em Hebraico, descobrimos algo quase inacreditável: o verbo «reconheceu-os» (וַיַּכִּרֵם), e o verbo «não se deu a conhecer» (וַיַּכִּרֵם), são derivados da mesma raiz. Vocês podem imaginar? Essas duas ações, não apenas muito diferentes mas, em um sentido completamente oposto —«reconhecer» e «disfarçar»— são expressas com verbos vindos da mesma raiz. É impossível traduzir e quase impossível até mesmo explicar.

Este é um exemplo excepcionalmente belo de quão multifacetada é a língua Hebraica e quão profunda é a sua Palavra. O Hebraico Bíblico é principalmente uma linguagem verbal, e os verbos são derivados de raízes de três consoantes que compreendem a «essência» do significado de uma palavra. A maioria dos verbos em Hebraico são formados a partir de uma raiz, mudando vogais e adicionando diferentes prefixos e sufixos, formando assim diferentes radicais. Dependendo do radical (binyán), os verbos derivados da mesma raiz podem ter significados muito diferentes, como vemos aqui em nosso texto. No entanto, sendo derivados da mesma raiz, todos eles têm algo em comum, todos eles se relacionam com a mesma «essência».

De volta à nossa história, sim, José fez-se um estranho, e sim, ele estava irreconhecível e, ainda assim, fora de seu disfarce, essa incrível raiz de reconhecimento toca o coração dos irmãos com algo dolorosamente familiar. Não é de admirar que, desde o primeiro encontro com este Vice-Rei Egípcio, eles soubessem que era tudo sobre seu irmão há muito vendido, embora parecesse não haver nenhuma conexão entre as histórias. O Espírito de Deus está tocando seus corações, e seus corações estão queimando, embora seus olhos não pudessem reconhecer seu próprio irmão e toda essa incrível dinâmica se reflete nesses dois verbos Hebraicos, de significado oposto, mas derivados da mesma raiz: hikír – hitnakér.

A lógica de Deus

Lemos que José «falou asperamente com eles»acusando-os de serem espiões e de virem «ver os pontos fracos da terra».[2] Devemos admitir que esta acusação, bem como a que segue, é desprovida de qualquer lógica, e não há uma explicação racional para o que estamos testemunhando. À primeira vista, tudo o que José diz carece de qualquer indício de compreensibilidade. Por que ele de repente os acusa de espionagem? Por que ele lhes diz?: «nisto sereis provados, e assim se verá se há alguma verdade no que dizeis»:[3] tragam o vosso irmão que atualmente não está convosco. Se ele já os está acusando, qual poderia ser a ligação entre o irmão que ficou em casa e a acusação levantada contra eles?

Mas, a partir deste momento, uma mão invisível está furtivamente se aproximando daquela mancha profunda, escura e vergonhosa que os irmãos esconderam todos esses anos, não apenas dos outros, mas de si mesmos também. É como se um jogo de quente e frio começasse aqui, a partir de agora, cada cena, cada passo dado nesta história enche seus corações de confusão e medo progressivamente maiores; a cada evento subsequente, eles sentem a mão invisível ficando «mais quente», lenta mas, seguramente se aproximando daquele local secreto enterrado em seus corações. Por mais inesperada que essa acusação possa ter soado para eles com sua subsequente exigência de trazer seu irmão mais novo, não lhes pareceu irracional. «Disseram uns aos outros: “Na verdade, somos culpados, no tocante a nosso irmão, pois lhe vimos a angústia da alma, quando nos rogava, e não lhe acudimos; por isso nos vem esta ansiedade”».[4]

Observem que eles ainda não mencionam Deus; eles ainda precisam entender que ninguém menos que o próprio Todo-Poderoso os tornou participantes deste jogo. Ainda ouvimos formas verbais impessoais e passivas: «essa aflição veio sobre nós, e seu sangue agora é exigido de nó»(דמו נדרש).[5] Eles ainda atribuem o que está acontecendo aos caprichos e crueldade do governador Egípcio e, consequentemente, a nada mais do que uma reviravolta infeliz nos acontecimentos, e ainda… em seus recessos internos profundos, uma curiosa conexão espiritual entre o que está acontecendo com eles e aquela história antiga já está começando a ser revelada…

 

[1] Gênesis 42:6-7.

[2] Gênesis 2:7,12.

[3] Gênesis 42:15,16.

[4] Gênesis 42:21.

[5] Gênesis  42:22.

Os conhecimentos que vocês leem nessas páginas são típicos do que compartilhamos com nossos alunos durante os cursos DHB (Discovering the Hebrew Bible/Descobrindo a Bíblia Hebraica) ou WTP (Weekly Torah Portion/Porção Semanal da Torá). Se esses artigos despertarem seu interesse por descobrir os tesouros escondidos da Bíblia Hebraica, ou estudar em profundidade a Parashát Shavúa, junto com os conhecimentos do Novo Testamento, ficaria feliz em fornecer mais informações (e também um desconto de professor para os novos alunos) em relação aos cursos da eTeacher   (juliab@eteachergroup.com). Além disso, trechos de meus livros estão incluídos neste artigo (e muitos outros posts aqui), então se vocês gostam dos artigos neste blog, vocês podem gostar também dos meus livros, vocês podem obtê-los aqui.

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

You might also be interested in:

De Jerusalém A Roma (2): A...

Por Julia Blum

De Jerusalém A Roma (1)

Por Julia Blum

Join the conversation (No comments yet)

Deixe uma resposta