De Jerusalém A Roma (2): A última Pergunta

Da última vez, discutimos o primeiro capítulo do Evangelho de Lucas. Como vocês sabem, os dois volumes de Lucas (o Evangelho e os Atos) têm muito em comum. Entre muitas outras similaridades, há uma semelhança peculiar na estrutura, principalmente no início: em ambos os volumes, o evento principal de «abertura» acontece apenas no segundo capítulo: o nascimento de Jesus no Evangelho; o nascimento da Igreja em Atos. Da última vez, pelas palavras do próprio Lucas, aprendemos que relatar as coisas em ordem era uma característica essencial de seus escritos. Portanto, os eventos do primeiro capítulo do Evangelho de Lucas devem ter sido muito importantes aos seus olhos, se precedem o nascimento de Jesus em seu «relato ordenado». Ao abrirmos o livro de Atos, vemos que também no primeiro capítulo, Lucas estabelece alguns antecedentes para eventos futuros e, semelhante ao Evangelho, é um contexto muito Judaico também! Assim como no Evangelho, este pano de fundo Judaico do primeiro capítulo de Atos forma a base e constitui o «número um» na sequência do relato de Lucas e não apenas o segundo, mas todos os capítulos deste livro, precisam ser lidos neste contexto.

A última pergunta

Então, vamos começar a ler. Estamos no primeiro capítulo de Atos. Em Atos 1:4, Jesus ordenou a seus discípulos que não «saíssem de Jerusalém». Para entender melhor esse mandamento, temos que lembrar que essa conversa aconteceu poucos dias antes de Pentecostes/Shavuót e que Shavuót é um dos três festivais Bíblicos de peregrinação[1] quando todos os Judeus devotos deveriam estar em Jerusalém. Nesse sentido, Jesus está apenas confirmando aos seus discípulos os mandamentos dados na Torá. Lucas enfatiza que a história da Igreja começa na festa bíblica Judaica de Shavuót (assim como em seu Evangelho, a história de Jesus começa no Templo bíblico Judaico).

No entanto, por mais importante que seja esse detalhe, a parte mais significativa do pano de fundo que Lucas apresenta neste capítulo é, sem dúvida, a pergunta que os discípulos de Jesus lhe fazem aqui. Muitos leitores Cristãos não prestam atenção a esta questão, embora seja absolutamente crucial para o correto entendimento de todo o livro. É como uma configuração correta no seu computador: vocês não poderão ficar online se a configuração do seu WIFI estiver desligada e vocês não estiverem conectados. Vocês não serão capazes de entender a história de Jesus e Israel em geral, e o livro de Atos em particular, se vocês perderem esta última pergunta que os discípulos fizeram a Jesus: «Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?».[2] Esta única pergunta é suficiente para entender quão grande era a diferença entre a redenção que Israel estava procurando e aquela que Jesus trouxe.

Claro, era uma questão muito pertinente: o Messias que Israel estava esperando não poderia deixar de trazer redenção e salvação ao povo de Israel. O Mashíaj (Messias) era entendido como aquele que viria principalmente para cumprir esse propósito. Nenhuma pessoa devota e crente em Israel poderia imaginar que Deus enviaria sua salvação por um salvador que não salvaria seu povo —a maioria dos meus leitores provavelmente saberia disso—. No entanto, há dois pontos muito importantes que quero enfatizar porque acredito que Lucas deseja enfatizá-los. Não podemos entender o livro de Atos corretamente se não entendemos esses pontos.

Em primeiro lugar, devemos perceber que os discípulos fazem esta pergunta, não apenas após três anos de comunhão ininterrupta com Jesus, mas após sua morte na cruz, após sua ressurreição, após os quarenta dias que ele apareceu a eles, ensinando e explicando os mistérios do plano de Deus: «aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus».[3] E se, depois de todas as suas explicações e mensagens, os discípulos que Ele escolheu e instruiu continuavam a esperar isso dele, então o que dizer sobre todas as outras multidões de Israelitas que, ouvindo suas mensagens e vendo seus milagres, estavam absolutamente convencidas que, mais cedo ou mais tarde, Ele iria certamente começar a salvar e restaurar Israel?

A fé em um Messias real que restauraria o trono de Davi e, portanto, o reino de Israel era um componente inseparável da fé em Deus e estava baseada em uma promessa Bíblica. «Estabelecerei a tua semente depois de ti, que sairá do teu corpo, e estabelecerei o seu reino. Ele edificará uma casa ao meu nome, e estabelecerei o trono de seu reino para sempre. Eu serei seu Pai e ele será meu filho».[4] Nesse contexto, é vital perceber que o povo de Israel não poderia aceitar Jesus como seu Messias, por fidelidade a Deus e à sua Palavraem seu entendimento, isso teria contradito as Escrituras. E aqui está o ponto que eu quero que vocês vejam. De acordo com Lucas, somente Deus poderia ter aberto os olhos do povo de Israel para reconhecer o Messias que diferia das expectativas tradicionais. Vemos isso muito claramente no último capítulo transicional do Evangelho de Lucas, na história de Emaús, onde o próprio Deus primeiro fecha e depois abre os olhos dos discípulos. Aqui em Atos, Lucas coloca esta questão —A Questão— como uma espécie de prefácio de todo o livro: a partir do próximo capítulo, ele mostrará como o próprio Deus abre os olhos. Em seu relato, veremos aqueles cujos olhos foram abertos e aqueles cujos olhos o próprio Deus decidiu não abrir. No entanto, em ambos os casos, a abertura dos olhos é prerrogativa de Deus e  escolha de Deus e precisamos lembrar disso durante a leitura deste livro.

Há outro ponto que Lucas deseja que vejamos aqui. Em sua resposta aos discípulos, Jesus não disse: Que pergunta estúpida ou inadequada! Ele não diz: «Ó néscios e tardos de coração para crer em tudo o que os profetas disseram», como ele disse na estrada para Emaús.[5] Sua resposta implica que o reino realmente será restaurado a Israel, mas não cabe a nós saber quando, está fora do conhecimento humano. E este é o cenário que, afirmo, é necessário para a compreensão de todo o livro. Na maioria das vezes, o livro de Atos tem sido visto como prova de que Deus abandonou os Judeus e se voltou para os Gentios. Tentarei mostrar que este livro, se lido corretamente, não suporta de forma alguma essa visão. Fiquem ligados como mencionei no meu último artigo, estaremos fazendo alguns «recálculos» aqui!

[1] Êxodo 23:14-17.

[2] Atos 1:6.

[3] tos 1:3.

[4] 2 Samuel 7:12-14.

[5] Lucas 24:25.

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About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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