De Jerusalém A Roma (1)

Recalculando

Hoje estou começando algo que há muito tempo queria fazer. Há muito tempo, desejo ler o livro de Atos junto com meus leitores. Muitas vezes, este livro em particular é percebido como uma linha de demarcação, como uma declaração de separação de qualquer coisa Judaica. Algo precisa ser mudado na forma como lemos este livro. Embora todo o Novo Testamento tenha sido amplamente mal interpretado e mal compreendido, o livro de Atos é especialmente crucial para a compreensão dessa divisão de caminhos.

À primeira vista, até a estrutura deste livro proclama esta grande separação: a narrativa começa em Jerusalém e termina em Roma. O livro de Atos na verdade é muito claro, a mensagem de Jesus deve ir aos Gentios também; tem que se espalhar de Jerusalém a Roma e, nesse sentido, o itinerário está traçado. No entanto, todos sabemos que qualquer navegador (GPS) pode nos levar ao mesmo destino por percursos muito diferentes. Além disso, se perdermos uma curva ou pegarmos uma curva errada, nosso navegador recalcula para nos levar de volta ao caminho certo (alguns até dizem, «Recalculando»). Talvez algum caminho errado foi tomado nesta estrada de Jerusalém a Roma? Parece que algum novo cálculo precise ser feito aqui, a fim de nos colocar de volta no caminho certo.

Meu objetivo é demonstrar o Judaismo do livro de Atos pela demonstração de seu contexto histórico e cultural Judaico do primeiro século. Vamos ler este livro juntos e tentarei mostrar a vocês os detalhes que pertencem ao contexto Judaico que não são óbvios para o leitor Cristão. Talvez vocês já tenham visto alguns deles, enquanto eu imagino que alguns serão novos para vocês. Mas antes de começarmos a ler Atos, vamos dizer algumas palavras sobre o escritor deste livro.

Um relato ordenado

Todos nós sabemos que Atos é a segunda parte de uma obra de dois volumes escrita pelo autor do terceiro Evangelho, tradicionalmente identificado como Lucas. A maioria dos estudiosos concorda que as duas obras (Lucas-Atos) têm um estilo literário comum, paralelos narrativos e semelhanças temáticas. Nesse sentido, algumas lições do Evangelho podem ser muito úteis para nós em nossa pesquisa de Atos.

O que eu quero dizer? É muito importante prestar atenção à estrutura dos escritos de Lucas. Lucas gosta de escrever as coisas em sequência. Desde o início, no prefácio de seu Evangelho, ele promete a Teófilo «escrever… um relato ordenado»[1] Observemos estas palavras, e se nos lembrarmos que no Evangelho de Lucas, o principal evento de abertura, o nascimento de Jesus, acontece apenas no segundo capítulo, podemos perguntar: o que estaria então no primeiro capítulo? O que era tão importante aos olhos de Lucas, que ele efetivamente o transformou no número um nos eventos que descreveu?

A resposta é óbvia quando a pergunta certa é feita. Todos nós sabemos que o Evangelho de Lucas tem um primeiro capítulo muito longo que fornece muitos detalhes Judaicos. Na verdade, tudo o que lemos e aprendemos neste capítulo pertence à tradição Judaica. E se o cenário Judaico, o contexto Judaico e todos esses detalhes Judaicos, constituem o Capítulo Um do relato ordenado de Lucas, não deveríamos prestar atenção a essas coisas que eram tão importantes para ele a ponto de preceder o nascimento de Jesus?

O que são essas coisas? Primeiro, nos encontramos no Templo onde o sacerdote Zacarias ia  cumprir suas obrigações no Templo, «segundo o costume sacerdotal». Algo de extraordinário significado aconteceu naquele dia no Templo. Zacarias experimentou uma visitação angelical e ouviu a anunciação do nascimento milagroso de seu filho, e tudo isso aconteceu no Templo «enquanto ele realizava seu serviço sacerdotal perante Deus»Vocês já contemplaram este fato simples, mas muito poderoso? O Deus Todo-Poderoso poderia ter enviado Seu anjo a Zacarias em qualquer lugar, em sua casa, seu jardim, na rua, mas escolheu anunciar o nascimento de João Batista no Templo. Assim, toda a história de Jesus começa no Templo Judaico, e se lembrarmos, mais uma vez, que a intenção de Lucas é escrever as coisas em sequência, entendemos que esse fato constitui o número um em seu relato.

A próxima coisa que foi claramente muito importante para Lucas nos dizer, diz respeito a Maria (Miriam), a mãe de Jesus. Embora a maioria das pessoas reconheça o Judaísmo de Jesus hoje, sua mãe, Miriam, ainda parece estar totalmente divorciada de sua origem Judaica. Ela é ainda mais conhecida pelos títulos, Virgem Santíssima ou Nossa Senhora. No entanto, aqui no Evangelho de Lucas, esta moça de Nazaré da Galiléia é descrita como claramente pertencente ao seu povo.

Por exemplo, é preciso conhecer os costumes do casamento Judaico da época para entender a situação difícil de Miriam grávida e sua decisão de ir a Elisheva (Elizabeth). Havia duas etapas no casamento na época de Jesus: o noivado e o casamento, e podia haver um ano ou mais entre eles. Uma das principais razões para o período de noivado era garantir que a noiva não estava grávida. Ficar grávida durante esse tempo de noivado era um pecado grave e uma grande humilhação. E, no entanto, foi precisamente nessa época, quando Miriam já estava noiva de José e aguardando a fase final do casamento, que ocorreu a concepção milagrosa.

Miriam sabia que estava em uma situação muito difícil, mas ela se entregou totalmente ao Senhor, buscando apoio e encorajamento nele e somente dele. É preciso saber que Elisheva morava no pequeno vilarejo de Ein Karem, nos arredores de Jerusalém, para adivinhar que no seu caminho para lá Miriam poderia ter entrado em Jerusalém para orar e derramar sua alma diante do Senhor. Parece que Deus consolou Miriam com a história bíblica de Ana, seu sofrimento e humilhação, seu nascimento milagroso e seu louvor: «Meu coração se alegra no  Senhor… Alegro-me na tua salvação»,[2]  porque quando Miriam cumprimenta Elisheva, ela está cheia de alegria e gratidão e louva ao Senhor com quase as mesmas palavras: «Minha alma engrandece ao Senhor e meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador».[3]

Finalmente, encontramos outro detalhe interessante aqui, no primeiro capítulo do relato ordenado de Lucas. Zacarias e Elisheva, deslumbrados de alegria por ocasião do nascimento de seu filho, há muito esperado e milagrosamente dado, no oitavo dia «vão dar o nome» a seu filho. O leitor pode se perguntar: No oitavo dia? Eles não tiveram nove meses para pensar no nome? Por que os pais de João demoraram?

A resposta vem tanto da Torá quanto da tradição Judaica. Em Gênesis 17, Deus dá a Abraão o mandamento da circuncisão. A partir desse momento, a circuncisão de um menino Judeu sempre ocorre no oitavo dia após o nascimento. O Evangelho de Lucas registra a estrita observância desse rito, tanto no caso de João Batista quanto de Jesus. No entanto, na tradição Judaica, não é apenas a circuncisão  que acontece no oitavo dia.

No mundo Judaico moderno, o nome de um menino recém-nascido é sempre anunciado em sua cerimônia de circuncisão. Esta tradição é baseada na ideia de que um menino deve receber o nome imediatamente após entrar na aliança de Abraão. Esta tradição existe há muitos séculos, mas, surpreendentemente, é aqui, no Evangelho de Lucas, que vemos a primeira evidência de um menino Judeu sendo nomeado em sua brit milá: circuncisão. O próprio Abraão recebeu um novo nome quando foi circuncidado. Lucas mostrando o nome de João sendo dado durante a circuncisão pode ser visto como enfatizando a conexão entre Abraão, João e Jesus.

O paralelo   

De volta aos Atos, como já mencionei, a maioria dos estudiosos concorda que os dois volumes (Lucas-Atos) têm muito em comum. Se o cenário Judaico e o contexto Judaico são tão importantes aos olhos de Lucas a ponto de constituir o primeiro capítulo de seu relato ordenado no Evangelho, podemos esperar ver a mesma estrutura no livro de Atos. Na verdade, encontramos uma semelhança notável: em ambos os volumes, o evento principal de «abertura» acontece no segundo capítulo: o nascimento de Jesus no Evangelho; o nascimento da Igreja em Atos. (Muitos leitores Cristãos nem prestam muita atenção ao primeiro capítulo de Atos, eles veem «o verdadeiro começo» do livro no Capítulo Dois). E então o que encontramos no Capítulo Um? Mais uma vez: o que era tão importante aos olhos de Lucas, que ele realmente o transformou no número um nos eventos que descreveu? E descobrimos que exatamente da mesma forma, como fez no Evangelho, Lucas abre seu relato ali com um cenário muito Judaico! Em ambos os volumes, os primeiros capítulos estabelecem um pano de fundo muito importante: esse pano de fundo forma a base e constitui o «número um» no relato ordenado de Lucas e é intenção de Lucas que ambos os volumes sejam lidos contra esse pano de fundo! Vocês podem estar pensando que o «Judaísmo» de Atos 1 é menos óbvio do que o «Judaísmo» de Lucas 1, nesse caso, vocês podem se surpreender da próxima vez, quando leremos este capítulo juntos! Nosso objetivo é restaurar a mensagem que Lucas nos transmite neste livro.

 

[1] Lucas 1:3.

[2] 1 Samuel 2:1.

[3] Lucas 1:46,47.

 

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About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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