Pardes: Abrão E Sara No Egito (2)

REMEZ

Da última vez começamos a analisar a história muito controversa de Abrão descendo para o Egito, em Gênesis 12. Começamos a aplicar a este episódio, os quatro níveis de exegese Bíblica Judaica, PARDES, e falamos sobre o primeiro nível –PESHAT– o significado direto e literal do texto. Hoje vamos lidar com dois níveis mais profundos da técnica PARDES, indo além do sentido literal -REMEZ e DERASH-.

O segundo nível desta técnica é REMEZ (“indício”) –”o significado sugerido pelos textos, embora obviamente ele não esteja indicado”–.[1] Qual é o significado REMEZ da nossa história? Qual é o significado que nosso texto “sugere”?

Há uma expressão no Judaísmo: ma’asei avot, siman l’banim, que significa que “as ações dos pais são um sinal para os filhos”. Assim, é como os rabinos descrevem as narrativas de Gênesis. “Ma’asei avot, siman l’banim” significa que as histórias sobre os Patriarcas nos contam não só sobre os Patriarcas, mas também sobre os seus descendentes –sobre o que acontecerá com a nação de Israel no futuro–. De acordo com este conceito, na tradição Judaica, a viagem de Abrão descendo ao Egito prenuncia o futuro exílio Egípcio. Enquanto “Abrão subiu do Egito” prenuncia a futura redenção de Israel –o Êxodo–. Então, vemos que, tal como Abraão deixou o Egito “sobrecarregado com gado, prata e ouro” , assim também os Israelitas deixaram o Egito “com grande riqueza“. A tradição Judaica vê a história subsequente dos filhos de Israel ensaiadas e anunciadas nas andanças de Abraão.

Mas e quanto as escrituras em si, apoiam essa compreensão dos rabinos? A jornada de Abrão realmente “sugere” a história do êxodo de Israel do Egito?

“Existem… critérios comumente aceitos e reconhecidos para fazer a afirmação de que um texto foi intencionalmente escrito como uma analogia, ou prenúncio, de outro texto: (1) palavras e frases compartilhadas (paralelos léxicos) e (2) argumento compartilhado (paralelos temáticos)”.[2] Se compararmos a descrição do êxodo de Israel e a descrição da jornada de Abrão, veremos muitas palavras, frases e temas comuns. Em primeiro lugar, Abrão desce para o Egito pelo mesmo motivo que mais tarde, no tempo de José, os filhos de Israel desceram ao Egito: por causa de uma “fome” na terra. Deus ataca Faraó com pragas, assim como Ele faria mais tarde, na história de Êxodo. E os detalhes adicionais que já mencionamos, Abrão deixa o Egito com grandes riquezas, assim como os filhos de Israel deixariam o Egito “com grande riqueza” no tempo de seu êxodo. Todas essas palavras e frases compartilhadas provam que a história da permanência de Abrão no Egito prenuncia a história do Êxodo. Assim, o significado Remez, o significado que esta Escritura “sugere”, sustenta a tradição: o paradigma da grande história nacional do Êxodo é apresentado pela primeira vez na história de Abrão.

DERASH

O terceiro nível de PARDES, DERASH, “examina não apenas o texto principal que está sendo estudado ou exposto, mas também outros textos sagrados que estão associados ao texto principal”.[3] Aqui, para entender o significado de Abrão descendo ao Egito, comparemos nosso texto com o chamado inicial de Deus para Abrão –Lech Lecha–.

Vocês podem lembrar que, em nosso primeiro artigo sobre esta Porção da Torá, dissemos que Lech Lecha pode ser lido como: “vá por si mesmo” –como o chamado de Deus e a comissão de Deus para Abrão e para todos–. Deus diz a todos: “Lech Lecha”; Ele chama todos a embarcarem nesta jornada interior de fé: em direção a essência da nossa alma, em direção ao nosso propósito final, para a nossa autorrealização.

Agora, se entendemos Lech Lecha como a jornada pessoal de fé de Abrão, também entenderemos que descer ao Egito e mentir sobre sua esposa expôs sua falta de confiança, que precisava ser resolvida. Não é insignificante que depois de sua experiência Egípcia o encontremos “entre Beth-El e Hai” (Gen.13:3). Em Inglês, esses nomes não significam nada, e provavelmente a maioria de vocês nunca prestou atenção especial a eles –mas em Hebraico, esse texto é muito profundo e os nomes refletem a jornada espiritual de Abraão–. Abraão foi dividido entre “Casa de Deus”… e “Monte de ruínas”, porque estes são os significados desses nomes bíblicos:

Bethel= “Casa de Deus”; Ai ou Hai= “Monte de ruínas”

Perguntamos, no início, se era a vontade de Deus que Abrão descesse ao Egito. Provavelmente, a vontade perfeita de Deus era que Abrão confiasse nele. No entanto, essa descida tornou-se uma preparação para (e, portanto, parte de) uma subida –preparação para e parte de um processo de transformação mais profundo–. Talvez Abraão nunca tivesse alcançado esses patamares de obediência e confiança no Senhor se ele não passasse por essa dolorosa experiência do “monte de ruínas”. O que pareceu ser uma interrupção foi, na verdade, parte integrante da sua jornada inicial, designada pelas palavras “Lech Lecha” –a jornada para as partes mais profundas de sua alma–. Nós lemos nas Escrituras: “Aí Abrão invocou o nome do Senhor[4] –e os capítulos seguintes nos contam a história de como o Senhor transformou seu “monte de ruínas” na “Casa de Deus”–. Não somos todos agradecidos que Deus possa transformar nosso “Monte de Ruínas” em uma “Casa de Deus”?

Hoje é o Dia de Ação de Graças nos EUA -e eu gostaria de desejar a todos um Feliz Dia de Ação de Graças-. Eu também queria ter um momento para dizer um grande Obrigada a todos os maravilhosos leitores e seguidores deste blog. Eu sou muito grata a vocês e por vocês.

 

Da próxima vez, veremos juntos o que é o SOD –o significado oculto, secreto– da permanência de Abrão e Sara no Egito.

 

DESEJO QUE VOCÊS E SEUS ENTES QUERIDOS TENHAM UM MARAVILHOSO DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS! QUE SEUS CORAÇÕES ESTEJAM CHEIOS DE GRATIDÃO E SUA CASA DE ALEGRIA.

[1][1] Hidden Treasures, Joseph Shulam, Netivyah Bible Instruction Ministry, 2008, p. 22.

[2]  Reading Moses, seeing Jesus, Seth Postell, Eitan Bar, Erez Soref,, One for Israel, 2017

[3] Hidden Treasures, Joseph Shulam, Netivyah Bible Instruction Ministry, 2008, p. 24.

[4] Gênesis 13:3

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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