Quando Foi A “noite De Paz”?

Quando foi a Noite de Paz? Em Lucas 2, um anjo apareceu aos pastores nos campos e disse-lhes: “Vos trago boa nova… de grande alegria, que o será para todo o povo[1]. Quando aconteceu? Quando foi declarada esta grande alegria? Os escritores do Evangelho ou não sabiam a hora do nascimento de Jesus ou não a consideravam importante, portanto, a época do ano que Jesus nasceu é uma questão de debate e palpites. Claro que a data tradicional de celebrar o nascimento de Jesus é 25 de Dezembro, porém a maioria dos historiadores concordam que o Natal não foi observado até cerca de 300 anos após a morte de Cristo, e as origens do Natal não podem ser rastreadas até os ensinamentos ou as  práticas dos primeiros crentes. Certamente, nenhum lugar da Bíblia indica que Jesus nasceu no inverno. Então, se Jesus não nasceu em 25 de dezembro, quando Ele nasceu?

Com base nos relatos do Novo Testamento (em primeiro lugar, nos cálculos relativos a concepção e nascimento de João Batista), o final do verão ou início do outono parece ser a época mais provável do nascimento de Jesus. Muitos crentes Messiânicos comemoram o nascimento de Jesus durante o Sukkot (a Festa dos Tabernáculos). Vejamos seus argumentos.

O primeiro argumento é muito simples e tem a ver com o clima. Qualquer um que tenha ido  para Israel no final de Dezembro definitivamente concordaria que 25 de Dezembro não poderia ser a data para o nascimento de Cristo. Aqui estão dois motivos principais: Primeiro, nós sabemos que os pastores estavam nos campos cuidando de seus rebanhos no momento do nascimento de Jesus.[2] Isso não aconteceria em Dezembro, uma vez que Dezembro na Judeia é muito frio e úmido, então o clima não permitiria aos pastores permanecer nos campos à noite. O final de Dezembro está no meio da temporada das chuvas em Israel, que dura de Sukkot até a Páscoa. Claro que não há maneira de saber se esse Dezembro em particular foi úmido, no entanto, em Dezembro as noites são sempre muito frias, às vezes abaixo de zero grau mesmo que os dias sejam agradáveis e ensolarados, então os pastores, juntamente com seus rebanhos, estariam pelo menos em algum abrigo à noite. Por outro lado, o início do outono –o tempo de Sukkot– se encaixa perfeitamente com o relato de Lucas.

Segundo, muitos estudiosos pensam também que Dezembro não seria um momento apropriado para um censo Romano: tais censos não eram feitos no inverno, quando a temperatura às vezes caia abaixo de zero grau e as estradas ficavam em uma condição muito ruim. E aqui novamente, o início do outono seria um bom momento para viajar para Belém. Existe até uma teoria de que José e Maria planejaram sua viagem a Belém para coincidir com a peregrinação do Sukkot a Jerusalém. Viajar com uma caravana de peregrinação da Galileia poderia garantir a eles segurança na viagem. O movimento da peregrinação também pode explicar a condição de não haver “nenhum quarto na pousada” em Belém.

O terceiro e o mais importante argumento se baseia no momento do nascimento de João Batista. O pai de João, um sacerdote chamado Zacarias, pertencia à “divisão sacerdotal de Abias”.[3]  Ele estava servindo no Templo quando o anjo Gabriel apareceu para ele e anunciou que Elizabeth, a esposa de Zacarias, iria conceber um filho. Depois que Zacarias voltou para casa, sua mulher concebeu, assim como o anjo tinha dito. No sexto mês de gravidez de Elizabeth, Gabriel visitou Maria para anunciar a concepção milagrosa de Jesus.[4]

Os 24 turnos do sacerdócio do templo encontram-se em 1 Crônicas 24. Os cálculos feitos mostram que a divisão de Abias servia em Junho. Depois que Zacarias concluiu seu serviço e viajou para casa, Elizabeth concebeu.[5] Supondo que a concepção de João ocorreu perto do fim de Junho, acrescentando-se nove meses nos leva até o final de Março como a época mais provável para o nascimento de João. Se acrescentarmos mais seis meses, chegamos ao final de Setembro –tempo do Sukkot– como o tempo provável para o nascimento de Jesus.

No entanto, todos estes argumentos, por mais importantes e convincentes que possam ser, se desvanecem na insignificância se pensarmos na essência: por que Jesus veio a esta terra, e quando poderia –e teve que– ser feito? Eu pessoalmente acho que os aspectos mais importantes aqui são razões teológicas –uma vez que podemos conhecer e reconhecer a caligrafia de Deus na história– (Sua história), podemos determinar quando por que e como  Jesus teve que nascer. Aqui estão algumas reflexões.

Primeiro de tudo, nós já sabemos que Sukkot é uma Festa bíblica da alegria, zman simchateynu,  “a época de nossa alegria”. Não seria um momento adequado para declarar “grande alegria para todo o povo”?

Segundo, quando João diz que a “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”,[6] podemos ver isto como uma alusão a Ele vindo para este mundo durante a Festa dos Tabernáculos.

Uma terceira razão possível para Jesus ter nascido em Sukkot, diz respeito a trazer as nações do mundo para o reconhecimento e a adoração ao Deus de Israel –um tema comum para Sukkot e para a missão e o Ministério de Jesus–. Foi  projeto original de Deus que o festival de Sukkot traria as nações do mundo para o verdadeiro Deus, e este tema do Sukkot está expresso em muitas profecias. Assim, na profecia de Zacarias lemos que no fim dos dias, todas as nações virão para celebrar o festival de Sukkot: Todos os que restarem de todas as nações que vierem contra Jerusalém, subirão de ano em ano para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos, e para celebrar a festa dos Tabernáculos.[7]  Quem teve o privilégio de participar ou mesmo apenas assistir a Marcha de Jerusalém que se realiza a cada Sukkot, saberia, sem sombra de dúvida, que o objetivo do Sukkot e o objetivo  de Jesus –alcançar as nações do mundo e trazê-las ao Deus de Israel– estão interligados.

Em quarto lugar, o Rei Salomão inaugurou o Primeiro Templo no festival de Sukkot: E todos os homens de Israel se reuniram ao Rei Salomão no festival no mês de Etanim, que é o sétimo mês…[8] Evidentemente, o momento deste evento não foi uma coincidência, mas sim o resultado do cuidadoso planejamento de Salomão. Quanto mais então, seria o momento adequado para estabelecer aquele que é realmente maior do que Salomão e maior que o Templo.

Finalmente, lembremos que Sukkot é um momento de renovada comunhão com Deus. Moisés voltou com o segundo conjunto de tabuas no Yom Kippur –então no Yom Kippur o povo de Israel já sabia que eles estavam perdoados–. No entanto, não foi até Sukkot que a presença de Deus encheu os sukkot –os tabernáculos–. Por isso  o Sukkot é o mais alegre de todos os feriados: os quebrantados estão curados; não somos mais órfãos; Deus veio novamente para o tabernáculo conosco. Emanu-El –Deus está conosco–. Este não teria sido o momento mais adequado para Emanuel vir a esta Terra?

 

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[1] Lucas 2:10

[2] Lucas 2:7-8

[3] Lucas 1:5

[4] Lucas 1:26-36

[5] Lucas 1:23-24

[6] João 1:14

[7] Zacarias 14:16

[8] I Reis 8:1-6

 

 

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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  1. Luiz Rafael

    Amazing!!!

  2. Carlos Ferreira

    Ótima explicação.
    Agradeço