Pentecostes-shavuot: O CÉu Se Abre

O Dia em que o Céu se Abre

Em nosso último post falamos sobre o Festival Bíblico de Shavuot, Festa das Semanas (também chamado Chag HaKatzir, Festa da Colheita). Falamos sobre o significado Bíblico de Shavuot e também sobre o significado deste Festival na tradição Judaica. É neste contexto que os eventos dos dois primeiros capítulos do livro de Atos devem ser vistos.

Entenderíamos melhor essa ordem se lembrarmos que Shavuot é um dos três festivais Bíblicos de peregrinação, quando todos os Judeus devotos deveriam estar em Jerusalém. Além disso, se lembrarmos o significado deste Festival na tradição Judaica, entenderíamos que certamente não havia coincidência de que o Céu se abriu e o Espírito desceu sobre os discípulos neste dia. Algo igualmente significativo e profundo aconteceu em Shavuot no passado: o evento mais importante na história Judaica, o recebimento da Torá no Monte Sinai, também aconteceu em Shavuot. Na tradição Judaica, Shavuot é o Festival da Entrega da Torah – Chag Matan Torah–.

Agora podemos ver esses paralelos lindos e profundos entre Deus dando a Sua Palavra e dando Seu Espírito. Em ambas as ocasiões, Shavuot se torna o dia em que o Céu se abre e o próprio Deus reivindica Seu povo. O “ruído como uma tempestade violenta” em Atos 2 definitivamente ecoa o trovão de Êxodo 20:18, e o fogo de Atos é paralelo ao fogo do Êxodo. Em Midrash Shmot Rabba, temos este comentário sobre Êxodo 20: “Uma voz foi dividida em sete e elas foram divididas em setenta línguas”.[1] Hillary Le Cornu e Joseph Shulam citam uma frase ainda mais surpreendente: “A voz foi dividida em sete vozes e de sete vozes em setenta línguas, de modo  que todas as nações ouvirão. E toda nação ouviu a voz em sua própria língua e ficou maravilhada”.[2] Não há dúvida de que Lucas conscientemente constrói esses paralelos e descreve os acontecimentos de Atos 2 em termos de um “segundo Sinai”.[3] Assim, a ordem de Jesus aos Apóstolos de esperar em Jerusalém também pode ser entendida como uma dica de que, como Sua Palavra foi dada em Shavuot, Seu Espírito também será dado em Shavuot.

O oculto e o revelado

Meus leitores que seguiram minha série o Messias Oculto[4] podem lembrar que aqui, pela primeira vez, o status messiânico de Jesus é proclamado publicamente. O contraste com Sua ocultação nos Evangelhos é radical. Nenhuma palavra pode descrever melhor esta mudança abrupta na atmosfera do Evangelho de Atos do que o versículo de Lucas: o que vocês sussurraram aos ouvidos dentro de casa, será proclamado dos telhados.[5] Em contraste ao oculto/escondido o segredo revelado apenas “no ouvido” da identidade messiânica de Jesus no Evangelho, aqui em Atos 2 ouvimos pela primeira vez uma proclamação aberta de sua Messianidade. Em seu primeiro discurso público, Pedro proclama em voz alta (quase literalmente ‘nos telhados’), que Jesus de Nazaré é o Messias: “Portanto, que todo o Israel fique certo disto: Este Jesus, a quem vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo”.[6] O segredo, o conhecimento esotérico do Evangelho de repente torna-se uma mensagem amplamente difundida em Atos; o segredo da messianidade de Jesus se torna revelado –e acontece em Shavuot–.

Na verdade, podemos ver aqui vários tópicos ocultos e revelados conectados ao Shavuot. Basta pensar nisso: todo Judeu sabia que a Torá foi entregue em Shavuot, uma vez que foi revelada na tradição Judaica. No entanto, por algum motivo está completamente escondido dos Cristãos. Por outro lado, todo Cristão sabe que o derramamento do Espírito aconteceu no Pentecostes, embora nem todo Cristão tenha consciência de que Pentecostes é Shavuot. Está revelado no Novo Testamento, mas escondido completamente dos Judeus. Claro, só a revelação completa pode nos dar a imagem completa do plano de Deus –e aqui vemos o quanto eles precisam um do outro–. Então, vou usar este momento para lhes contar a Parábola que sempre digo ao ensinar sobre o Judaísmo e o Cristianismo.

A Parábola das Colheres Longas[7] existe em muitas culturas e em diferentes versões. Ela fala sobre um homem que pediu a Deus para lhe mostrar o Céu e o Inferno. Deus mostrou ao homem dois quartos. No primeiro, estava posta uma grande mesa. Estava cheia de pratos deliciosos, mas as pessoas sentadas ao redor pareciam miseráveis: suas colheres tinham cabos muito longos, mais longos do que seus braços, e elas não podiam comer com essas colheres porque não conseguiam colocar as colheres na boca. Elas estavam sentadas na mesa farta, mas morrendo de fome –e isso era o Inferno–.

O segundo quarto parecia exatamente o mesmo. Havia também uma grande mesa com pratos deliciosos, e as pessoas  tinham as mesmas colheres longas. Somente que essas pessoas estavam bem nutridas e felizes, porque com as mesmas colheres longas, elas alimentavam umas as outras –e isso era o Céu–.

Esta parábola nos ensina que cuidar dos outros é a melhor forma de cuidar de nós mesmos. As pessoas podem perecer ou prosperar, dependendo de como se tratam umas  as outras –e, embora isso seja indubitavelmente verdade para cada um de nós–, também é verdade em relação aos Judeus e Cristãos, ao Judaísmo e ao Cristianismo.

Mais sobre o livro de Rute  

Nós já sabemos que o Livro de Rute é lido em Shavuot. Por quê? Há várias explicações: primeiro, a história ocorre no momento da colheita, e Shavuot é o Festival da Colheita; em segundo lugar, Rute e Noemi vieram a Beth-Lehem em torno da época de Shavuot; em terceiro lugar, há uma lenda de que o Rei Davi morreu em Shavuot, e Rute era  bisavó de Davi. “Além disso”, David Stern escreve, “uma vez que fala sobre a união de Rute a mulher Moabita com a família de Deus, ele dá um remez (“dica”) sobre o aspecto futuro da obra de Deus na terra, a união dos Gentios com o povo de Deus, os Judeus, através do Messias Yeshua”.[8]

E aqui, eu gostaria de acrescentar uma visão Hebraica: todos nós conhecemos as famosas palavras de Rute: “Aonde fores irei, onde ficares ficarei! O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus”.[9] Ela fala essas palavras no primeiro capítulo do livro, quando decidiu continuar com Noemi –enquanto a segunda nora, Orfa, voltou–. A palavra Hebraica que quero mostrar aqui, acredito, explica a diferença entre essas duas mulheres –entre aquela que foi e aquela que não foi–.

Em Rute 1:18, em Inglês, encontra-se: “Quando ela viu que ela estava firmemente decidida a ir com ela, então ela não falou mais nada”.[10] Esta “firmeza” (às vezes traduzida como “determinada”) traduz uma palavra Hebraica מִתְאַמֶּ֥צֶת, –fazer um esforço-. Nas Escrituras Hebraicas, bem como em algumas versões Inglesas, é a mesma palavra que ouvimos de Jesus em Lucas 13:24: Faça todos os esforços para entrar pela porta estreita”. Para se unir ao povo de Deus, para caminhar pelo caminho de Deus, requer esforço consciente, e Rute fez esse esforço, enquanto Orfa, com todas as boas intenções que teve, não fez o esforço. É por isso que lemos o livro de Rute –e não o livro de Orfa– em Shavuot.

 

 

 

Se os artigos deste blog tiverem despertado seu interesse de descobrir os tesouros escondidos da Bíblia Hebraica, ficaria feliz em fornecer mais informações (e também um desconto de professor) em relação aos nossos maravilhosos cursos.

 

[1] Êxodo Rabbah, 28:6

[2] Hillary Le Cornu, Joseph Shulam, The Jewish Roots of Acts, Netivyah Bible Instructions Ministry, 2003, p. 60

[3] Ibid., p. 61

[4] Ainda estou trabalhando no livro sobre o Messias Oculto

[5] Lucas 12:3

[6] Atos 2:36

[7] O autor é desconhecido, mas muitas vezes é atribuído ao Rabino Haim de Romshishok

[8] David H. Stern, Jewish New Testament Commentary, Jewish New Testament Publications, 1995 – p.220

[9] Rute 1:16

[10] Rute 1:18 VKJ

 

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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  1. Adriano S Silva

    Shalom !!! Obrigado Julia Brum, tenho crescido em Graça e Conhecimento com seus Posts e, também os tenho encaminhado a alguns de meus irmãos no Mashiach, sou evangélico estudante de Teologia, mas também estudo com os Judeus Nazarenos aqui no Brasil e estudo hebraico Bíblico com vocês no Instituto Israelita de Estudos Bíblicos. Se quiser me encaminhar mais estudos, ficarei muito grato.
    Shalom Aleichem Julia Brum

    Adriano S Silva

  2. Gilson Generoso Mourão

    Congratulations, Mss.Julia Blum.
    God continue blassing your precius life.
    I have the role espirit in may life, in 1990, wen I prayed one montain in Belo Horizonte, Minas Gerais State.
    I’am missionany in Internacional Comunity gospel salt zone in Rio de Janeiro.
    Have a good time, anda god blass you!
    Gilson G.Mourão.

  3. michel angeloni

    ola boquer tov Julia Blum shalom gostaria muito de ler os seus livros mas pelo que fiquei sabendo todos eles estao em ingles.
    teria alguma publicacao em portugues.
    grato passar bem.