Reflexões Do Novo Testamento: Vayetzé

A escada entre o céu e a terra

Próximo do início da porção da Torá de hoje, encontramos o famoso sonho de Jacó em Bet-el. Vocês devem lembrar que Jacó estava fugindo da ira de seu irmão depois de enganar o pai idoso na porção anterior (Toledót). Nesse ponto, ele provavelmente estava preocupado apenas com sua própria sobrevivência e não estava realmente procurando uma experiência espiritual. No entanto, o Deus de Abraão e Isaque apareceu ao fugitivo, fez-se conhecido por ele e reafirmou as promessas. No sonho de Jacó, ele viu uma escada ligando terra e céu, e os anjos estavam subindo e descendo nessa escada. Por que eles primeiro ascenderam e só depois desceram? Aqui está uma explicação do comentarista medieval Judeu Rashi: «Fora da terra, Jacó precisava de guardiões diferentes daqueles que o protegiam em seu local de nascimento. Os anjos que acompanharam Jacó em Canaã não saem e, portanto, ascendem ao céu; então outro grupo de anjos desce para acompanhá-lo fora da terra».

Certamente, que todos que já leram o Novo Testamento lembrariam imediatamente do primeiro capítulo do Evangelho de João, onde Jesus se apresenta como a «Verdadeira Escada» que liga a terra e o céu: a escada pela qual a revelação de Deus e a salvação de Deus vêm do céu à terra: «E acrescentou: “Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus, subindo e descendo sobre o Filho do Homem”».[1]

Não há dúvida de que Jesus faz alusão aqui ao sonho de Jacó. Ao se referir ao sonho de Jacó no começo de seu Evangelho, João sugere que, a partir de agora, o Filho do Homem desempenhará o papel dessa escada, fazendo a ponte entre a terra e o céu. Através de seu sonho, Jacó recebe revelação de Deus e confirmação das mesmas promessas que Deus deu a Abraão e Isaque. Segundo João, por meio do Filho do Homem, seus seguidores também receberão revelação e confirmação das promessas anteriores.

 

Mais sobre os anjos

Esta porção da Torá está cheia de anjos; Jacó não apenas viu anjos subindo e descendo a escada nesse famoso sonho a caminho da terra, mas muitos anos depois, quando ele estava voltando para a terra, no final de nossa Parashá, lemos: «Também Jacó seguiu o seu caminho, e anjos de Deus lhe saíram a encontra-lo. Quando os viu, disse: “é o acampamento de Deus”. E chamou aquele lugar Mahanáyim».[2]

Diferentemente da descrição do sonho de Jacó, o relato «Mahanáyim» é muito curto, e realmente não sabemos o que os anjos estavam fazendo e como foi o encontro. No entanto, há um detalhe intrigante aqui que só podemos ver no Hebraico. «Quando Jacó os viu, ele disse: “é o acampamento de Deus”. E chamou aquele lugar Mahanáyim».[3] «Mahanáyim» é uma construção dupla com a palavra «mahané» (acampamento), então Jacó, de fato, chamou esse lugar de «Dois acampamentos». Por quê? Rashi explica que Jacó de fato encontrou dois grupos de anjos, exatamente como em seu sonho —e, portanto, ele viu dois acampamentos separados—: um dos anjos de fora da terra, que veio com ele até esse ponto, e um dos anjos de Israel, quem veio cumprimentá-lo.

De acordo com Rashi, esses são os mesmos dois grupos de anjos apenas que enquanto em Bet-el, Jacó os viu em sonho, agora «o encontravam» quando ele estava acordado, como se quisessem proporcionar uma sensação ainda mais forte de segurança. Assim, entendemos que os anjos cumpriram um papel importante na proteção e orientação de Deus a Jacó. Esse entendimento de diferentes anjos que realizam atividades diferentes na terra, sob o comando de Deus, é muito consistente em todas as Escrituras Hebraicas e no Novo Testamento. Está em total conformidade com o Novo Testamento, onde os anjos são entendidos como «espíritos ministradores enviados para ministrar aqueles que herdarão a salvação».[4] Aqui os anjos também guiam e protegem o povo de Deus, punem os inimigos de Deus, trazem mensagens de Deus e interpretam sonhos e visões proféticas.

 

As doze tribos no Novo Testamento

Segundo a Torá, as 12 tribos de Israel se originaram dos 12 filhos de Jacó. Portanto, o nascimento dos filhos de Jacó é descrito com grande detalhe nesta porção da Torá. A história das 12 tribos começa aqui… mas, onde ela termina?

No final do Novo Testamento, no capítulo 21 do livro do Apocalipse, lemos uma descrição da Nova Jerusalém: «Tinha grande e alta muralha, doze portas, e junto às portas doze anjos, e sobre elas nomes inscritos, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel».[5]

Por que as 12 tribos de Israel são tão importantes não apenas na história bíblica, mas também na profecia bíblica? Algumas pessoas pensam erroneamente que as tribos de Israel não servem mais a nenhum propósito no Novo Testamento. A verdade é que quase todas as tribos são mencionadas no Novo Testamento pelo nome. Mesmo em sua mensagem a Maria anunciando sua gravidez e o milagroso nascimento de Jesus, Gabriel diz:

«Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo: Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, Seu pai; Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim».[6]

Tanto nas Escrituras Hebraicas quanto no Novo Testamento, a expressão «a casa de Jacó» sempre se refere às tribos Judaicas —aos descendentes de Jacó/Israel—. Portanto, as 12 tribos de Israel ainda são muito importantes no Novo Testamento, e o fato de os nomes das 12 tribos estarem nos portões da Nova Jerusalém, como o livro do Apocalipse a descreve, é uma prova adicional disso. É interessante notar que, enquanto os 12 portões no muro representam as 12 tribos de Israel, os doze fundamentos do muro representam os 12 apóstolos do Novo Testamento:

«A muralha da cidade tinha doze fundamentos e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro».[7]

Assim, o livro do Apocalipse enfatiza a unidade dos Antigo e Novo Testamentos.

 

[1] João 1:51.

[2] Gênesis 32:1-2.

[3] Gênesis 32:2.

[4] Hebreus 1:14.

[5] Apocalipse 21:12.

[6] Lucas 1:32,33 (grifo do autor).

[7] Apocalipse 21:14.

 

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About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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