Três Mais Quatro: Rebeca

Meus queridos leitores, hoje vamos falar sobre um dos meus personagens favoritos da Bíblia. De todas as quatro matriarcas (Sara, Rebeca, Lia e Raquel), a personalidade de Rebeca é a mais bem definida e descrita nas Escrituras. Primeiro, vemos Rebeca como uma jovem; depois, ela é uma esposa e uma mulher grávida; finalmente, nós a observamos em sua maternidade —o teste final de fé para toda mãe—. Muitas coisas poderiam ser contadas e mostradas aqui (os interessados ​​podem ler minha série sobre Rebeca neste blog: https://blog.israelbiblicalstudies.com/jewish-studies/biblical-portraits-rebecca-1/ ), mas hoje, por causa do formato atual do blog, vamos ter apenas alguns vislumbres das diferentes fases de sua vida. O que o Hebraico nos mostra aqui?

Literalmente enamorándose…

A história do amor de Isaque e Rebeca é uma das mais belas histórias de amor da Torá. Mas antes de se tornar uma história de amor, foi uma história de fé. Foi necessária a fé de várias pessoas para que esta história acontecesse, porém, o mais incrível desta história é a fé da própria Rebeca. Não consigo pensar em nenhuma fé mais forte do que aquela que Rebeca apresenta aqui. Quando o servo aparece do nada e apresenta a ela a escolha de sua vida —se ela irá com ele para ser uma esposa para o filho de Abraão, ela diz: «Sim»— e este é outro «Sim» a Deus, outra história de entrar no plano de Deus e nas bênçãos de Deus entregando a vida a Ele. Ela fez esta escolha decisiva e deixou sua casa em um dia. Imaginem: eles não tinham telefone nem Internet; não tinham carros nem aviões; e para ela deixar sua casa assim significava deixá-la para sempre e provavelmente nunca mais ver sua família. O fato de ela ter sido capaz de tomar uma decisão tão decisiva e rápida de deixar para trás tudo e todos que ela conhecia e amava, testemunha um caráter absolutamente excepcional!

Tudo isso acontece em Gênesis 24, e bem no final desse capítulo longo e cheio de acontecimentos, testemunhamos uma cena fascinante. Quando Rebeca vê Isaque pela primeira vez, saindo do deserto, ela literalmente cai do camelo. Em Português, geralmente é traduzido como «desceu» ou «desmontou», no entanto, a expressão em Português, «ela desmontou de seu camelo»[1] não retrata corretamente o original Hebraico, ותפל מעל הגמל —e ela caiu, caiu fora do camelo—. Por que Rebeca caiu?

Para entender isso, vamos relembrar os eventos de Gênesis 22 —la Aqedát ItzháqAqedát Itzháq, a história do sacrifício de Isaque, contém, entre seus outros enigmas, mais um mistério que nossos sábios há muito apontam. Depois de tudo o que aconteceu no Monte Moriá —depois que a faca erguida foi interrompida pela voz do céu— a Torá nos informa apenas sobre o retorno de Abraão: «Então voltou Abraão aos seus servos e, juntos, foram  para Berseba, onde fixou residência».[2] Isaque não é mencionado aqui. Para onde ele foi? O que aconteceu com ele depois de Aqedá?

Este é um exemplo maravilhoso das coisas que somente o Hebraico pode mostrar. Em Gênesis 24:62, «Isaque veio do caminho de Beer Lahai Roi». Na tradução, este nome não significa nada, é preciso conhecer o Hebraico para compreender seu significado profundo: «O Poço daquele que Me Vê Vive». Então, era lá que Isaque estava: era uma época de relacionamento muito próximo entre Isaque e o Senhor, uma época em que não foi o seu pai terreno, mas o próprio Pai Celestial que o restaurou após o terrível trauma pelo qual passou. Deus viu Isaque mesmo quando ele desapareceu da vista de todos: «Aquele que Me Vê Vive».

Voltando à nossa pergunta original: Por que Rebeca caiu? Rashi escreve sobre Rebeca e este encontro inicial: «Ela viu sua aparência majestosa e ficou maravilhada com ele». Provavelmente, depois do tempo que passou com Deus, Isaque deve ter resplandecido com a luz de Deus e brilhando com a glória de Deus. Talvez esta seja uma razão adicional pela qual, em Gênesis 24:65, lemos: «Então ela pegou seu véu e se cobriu». Claro, ela tinha que se cobrir por modéstia, como sinal de sujeição ao futuro marido: de acordo com o costume oriental, a noiva deveria ser trazida com véu à presença do noivo. No entanto, o próprio fato de ela ter caído do camelo dá indícios de que havia ainda mais do que isso. Isaque estava deslumbrando Rebeca quando ela pôs os olhos nele pela primeira vez e tanto ela caindo do camelo quanto ela se cobrindo faz mais sentido quando pensamos em Isaque irradiando a glória de Deus!

Mulher consagrada

Vinte anos se passaram. Rebeca tinha sido estéril por vinte anos e, finalmente, ela concebeu. A Torá nos diz que foi a resposta de Deus à intercessão emocional e fiel de seu amado marido. Em algum momento, Rebeca começou a sentir fortes movimentos dentro de seu ventre: «Mas as crianças debatiam-se dentro dela…». A palavra «debatiam-se» aqui traduz as palavras Hebraicas וַיִּתְרֹצְצו, mas na verdade não expressa a gravidade da situação de Rebeca: a raiz רצץ comunica a ideia de «quebrar», «esmagar» e «oprimir» —os movimentos que ela sentiu eram extremamente fortes e incomuns—.

Rebeca estava realmente preocupada, provavelmente por causa de um possível aborto, em primeiro lugar. Uma mulher moderna faria um ultrassom; claro, Rebeca não tinha essa opção. O que ela fez? Mais uma vez, ficamos maravilhados com a fé de Rebeca: «ela foi consultar o SENHOR». O «consultar o SENHOR» traduz aqui a mesma expressão Hebraica que é geralmente traduzida como «buscar o Senhor»Por exemplo, lemos em Deuteronômio: «De lá buscarás ao Senhor teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma».[3] Esta expressão não ocorre com frequência na Bíblia e, quando ocorre, nunca se refere a uma mulher, exceto aqui. Nesse sentido, Rebeca é de fato uma personagem única: é a única mulher na Bíblia da qual se diz explicitamente que foi «buscar o Senhor». Não é de admirar que a profecia que ela ouviu do Senhor tenha definido não apenas a vida de seus filhos, mas também a vida de seus descendentes por muitos séculos depois. Ela ouviu do Senhor, porque ela o buscou.

A crise de Rebeca  

Todos nós conhecemos a história da «bênção roubada», mas há muitos detalhes ocultos nesta história. Primeiro, as pessoas geralmente imaginam jovens disputando a bênção do pai, porém, pulando aqui todos os cálculos, deixe-me apenas dizer que «os meninos» tinham 77 anos na época desta história, não exatamente homens jovens! Isto significa que Rebeca é uma mulher muito velha agora, com mais de cem anos. Muitos, muitos anos antes, quando estava grávida, ela recebeu uma profecia de Deus e todos estes anos ela esperou pacientemente que esta profecia se cumprisse. No entanto, os anos se passaram e nada aconteceu. A esta altura, ela não apenas está cansada de esperar, mas provavelmente também está tendo pensamentos assustadores, como: E se for minha culpa? Talvez Deus quisesse que eu fizesse alguma coisa, e eu perdi isso!

Infelizmente, ela não tem ninguém com quem compartilhar estes pensamentos. Seu relacionamento com o marido obviamente mudou, até mesmo foi danificado. Em Gênesis 25, ainda os encontramos muito próximos: Isaque está intercedendo fielmente por sua esposa neste capítulo, enquanto em Gênesis 27 vemos uma imagem completamente diferente: Isaque está planejando abençoar Esaú, isto deveria ser um grande evento familiar, e ele nem está compartilhando isto com Rebeca. Algo mudou drasticamente entre os Capítulos 25 e 27, e seria um palpite seguro sugerir que isso aconteceu em Gênesis 26, após a história de sua irmã/esposa. Essa traição de confiança, ao que parece, causou uma erosão gradual dessa relação. Consequentemente, Rebeca está completamente sozinha com seus pensamentos. Creio que ela pensa muito naqueles momentos cruciais de sua vida: quando, como jovem, disse «sim» ao servo e a Deus com tanta ousadia e sem reservas, e quando, 20 anos depois, finalmente engravidou e ouviu Deus falando com ela sobre seus filhos. Talvez ela compare estas histórias: quando jovem, ela era muito decidida, não tinha medo de tomar atitudes muito ousadas, e talvez agora Deus esteja novamente esperando por sua decisão —por sua ação decisiva—. Ela esperou no Senhor por tanto tempo, e talvez ela pense que Deus agora está esperando por sua resposta, assim como Ele esperou então, muito tempo atrás. Não estamos todos lutando às vezes com esta pergunta: devo apenas esperar no Senhor ou há algo que Ele quer que eu faça?

Provavelmente, estes foram os pensamentos que passaram pela cabeça de Rebeca quando ela ouviu a conversa entre Isaque e Esaú. Pode ter parecido a ela que, finalmente, havia chegado o momento de sua decisão e ações rápidas; mais uma vez, como em Gênesis 24, ela precisou tomar uma decisão muito rápida; mais uma vez, foi questão de poucas horas para ela fazer a escolha certa. Deus não havia apontado distintamente a Jacó como herdeiro de Suas promessas e da bênção de Abraão? Ela estaria apenas cumprindo a vontade de Deus; ela estaria fazendo a coisa certa, tentando evitar que o marido cometesse um erro terrível —abençoar o filho errado—. Não há dúvida de que ela ama os dois filhos: Gênesis 27:45 mostra isso muito claramente, mas ela conhece a vontade de Deus e, mais uma vez, como em Gênesis 24, ela é capaz de tomar uma decisão muito rápida. Ela está dizendo «sim» a Deus e embora ela esteja escolhendo meios questionáveis, sem dúvida, seu coração está voltado para agradar a Deus e cumprir sua vontade. Neste sentido, esta senhora idosa tem a mesma fé da jovem que, como Abraão, pela fé, foi para uma terra que não conhecia.

[1] Gênesis 24:64.

[2] Gênesis 22:19.

[3] Deuteronômio 4:29.

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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