Jukát: A Receita Surpreendente De Deus

Meus queridos leitores, acabamos de terminar o livro de Atos e estamos prestes a iniciar uma nova série. Antes de fazermos isso, porém, gostaria de fazer outra coisa. Como vocês já sabem, de vez em quando eu posto aqui um comentário da Porção da Torá (Parashát Shavúa). A Parashát Shavúa Jukát é uma das porções mais ricas da Torá, e embora tenhamos lido Jukát algumas semanas atrás, gostaria de compartilhar mais um comentário sobre esta porção maravilhosa.

Escolha a vida

Jukát («o decreto de») é a primeira porção que inicia o movimento efetivo do povo em direção à Terra. Quarenta anos se passaram no deserto e qual é a primeira coisa que Deus fala quando o povo de Israel está prestes a entrar na terra? Ele fala sobre a lei da novilha vermelha, sem dúvida, uma das leis de sacrifício menos compreendidas no Antigo Testamento. Esta lei foi dada aos filhos de Israel para a purificação daqueles que se tornavam ritualmente impuros pelo contato com um cadáver —a mais alta forma de impureza ritual—. Desta forma, o propósito desta lei era remover a contaminação da morte que estava entre Deus e o homem e não é interessante que esta seja a primeira lei que Deus dá ao seu povo quando eles começam a se mover em direção à terra? Esta lei expressa a mesma divisão muito clara entre vida e morte que encontramos mais tarde nas famosas palavras de Deuteronômio: «Eis que hoje ponho diante de vós a vida e o bem, a morte e o mal»

No Novo Testamento, a novilha vermelha é mencionada apenas uma vez, em Hebreus 9:13-14. Como outros sacrifícios do Antigo Testamento, a lei da novilha vermelha é vista como um tipo e sombra da expiação de Jesus Cristo. O escritor de Hebreus deixa claro que, se as cinzas da novilha vermelha purificaram os filhos de Israel da contaminação dos cadáveres, «quanto mais» o sangue de Cristo purificará seus seguidores das «obras mortas».

No entanto, há um aspecto profundo adicional desta lei: diz respeito «à ironia deste sacrifício, pois aqueles que antes eram impuros se tornam puros, enquanto aqueles que eram puros de início (o Sacerdote e os assistentes) tornam-se impuros participando no rito».[1] O Sacerdote torna-se impuro para que o povo seja purificado; ele toma sobre si as impurezas rituais do homem e assim se torna imundo: «o sacerdote ficará impuro até à tarde»Esta mudança sacral tem sido muitas vezes ignorada por comentaristas Cristãos, mas tem causado muitos comentários de estudiosos Judeus. Por exemplo, aqui está o comentário que eu realmente gosto, escrito por Lubavitch Rebbe:

«O fato de as cinzas da novilha “purificarem os contaminados e contaminarem os puros” traz uma importante lição para nós em nosso cotidiano: se seu semelhante foi infectado por impureza e corrupção, não hesite em se envolver e fazer tudo ao seu alcance para reabilitá-lo. Se você está preocupado com a possibilidade de ser contaminado por seu contato com ele, lembre-se de que a Torá ordena ao Cohén que purifique seu companheiro Judeu, mesmo que seu próprio nível de pureza seja diminuído no processo».

Porque você não acreditou em mim

Há outro grande dilema nesta porção: aqui lemos sobre o pecado de Moisés que fez com que Deus lhe recusasse a entrada na terra. A história em si acontece aqui, e encontramos aqui as palavras do castigo de Deus, no entanto, não há uma opinião única entre os estudiosos sobre o que exatamente foi esse pecado. Lemos que, depois de todos estes anos de jornada pelo deserto, o povo de Israel chegou a Cades, no deserto de Zim. Aqui Miriam morreu e, imediatamente depois disso, «não havia água para a congregação».

Antes de prosseguirmos, vamos fazer uma pergunta: por que não havia água para a congregação após a morte de Miriam? Existe alguma conexão entre Miriam e a água?

A partir desta justaposição da morte de Miriam e da falta de água, os sábios Judeus concluíram que, durante todos os anos anteriores, os Israelitas tinham uma fonte de água, o chamado poço de Miriam. De acordo com Midrashím, o «poço» era na verdade uma rocha que seguiu os Israelitas durante toda a sua jornada. Foi desta rocha que Moisés tirou água pela primeira vez quando o povo se queixou da falta de água (em Êxodo), e é a mesma rocha que, após a morte de Miriam, Moisés bateu para tirar água novamente (em Números).

A propósito, vocês provavelmente se lembram das palavras intrigantes de Paulo em Primeira Coríntios: «Pois eles beberam da rocha espiritual que os seguia, e a rocha era Cristo»É claro que Paulo entendia a rocha em um sentido espiritual, e não físico; no entanto, temos que entender que quando Paulo fala sobre uma rocha viajante, ele está se baseando em uma rica interpretação tradicional.

Podemos agora continuar nossa leitura. Como sempre, o povo reclama com Moisés e Arão: «Por que vocês trouxeram a assembléia do Senhor para este deserto, para que nós e nossos animais morrêssemos aqui?». Então Deus diz a Moisés: «Tome a vara; você e seu irmão Arão reúnam a congregação. Fale com a rocha diante de seus olhos, e ela dará a sua água; assim tirarás água para eles da rocha, e darás de beber à congregação e aos seus animais».

Moisés e Arão reúnem a congregação, e Moisés repreende o povo: «Ouvi agora, rebeldes! Vamos tirar água desta rocha? Então Moisés “levantou a mão e golpeou a rocha duas vezes com sua vara; e a água saiu em abundância, e a congregação e seus animais beberam”». Parece uma conclusão feliz de mais uma história desagradável. No entanto, ouvimos Deus dizer a Moisés e Arão: «Porque não crestes em mim, para me santificar aos olhos dos filhos de Israel, não trareis esta assembléia à terra que lhes dei».

Então, qual foi o pecado de Moisés?

Os comentários Judaicos oferecem explicações diferentes sobre qual foi o pecado de Moisés (e de Arão). A mais tradicional é baseada na opinião de Rashi: Rashi disse que Moisés expressou falta de fé batendo na rocha em vez de apenas falar com ela, como Deus havia instruído. De acordo com Maimônides, o pecado de Moisés foi o fato de que ele se irritou e disse ao povo: «Ouvi agora, rebeldes!».

Outro estudioso Judeu medieval, Nachmanides, discorda de ambas as explicações, apontando que Deus diz explicitamente que o pecado de Moisés foi falta de  — não desobediência, como na explicação de Rashi, ou raiva, como na de Maimônides. Nachmânides, portanto, explica que o pecado estava nas palavras de Moisés: «Vamos tirar água desta rocha?». Moisés diz «nós» enquanto o milagre deve ser atribuído unicamente a Deus e o castigo de Deus é um aviso muito sério e severo para esses pronomes confusos, e dizer «nós» onde a glória pertence a Ele!

 

Há outra lição profunda nesta Porção da Torá: a lição da Serpente de Bronze. Se vocês estiverem interessados, podem ler aqui meu artigo sobre isso: https://blog.israelbiblicalstudies.com/jewish-studies/torah-portion-in-real-time-chukkat/

As ideias que vocês leem nestas páginas são típicas do que compartilhamos com nossos alunos durante as aulas de DHB (Discovering the Hebrew Bible/Descobrindo a Bíblia Hebraica) ou WTP ( Weekly Torah Portion/Porção Semanal de Torá). Se esses artigos despertarem seu interesse por descobrir os tesouros escondidos da Bíblia Hebraica, ou estudar em profundidade a Parashát Shavúa, juntamente com os conhecimentos  do Novo Testamento, ficaria feliz em fornecer mais informações (e também um desconto de professor para os novos alunos) em relação aos cursos eTeacher ( juliab@eteachergroup.com ).

Se vocês gostam dos artigos deste blog, vocês também podem gostar dos meus livros, vocês podem obtê-los aqui.

 

[1] Studia Antiqua Volume 4 | Number 1 Article 4 April 2005 , Mélbourne O’Banion The Law of the Red Heifer: A Type and Shadow of Jesus Christ,  p. 35

 

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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