Perdido Na Tradução: Genealogias

«E estas são as gerações de Isaque, filho de Abraão: Abraão gerou Isaque» (VaEíle toledót Itzják) – este é o início da nova porção da Torá: Toledót. Estas mesmas palavras, VaEíle toledót, ocorrem onze vezes no livro do Gênesis, servindo como um título para suas principais divisões e «fazendo da descendência uma pedra angular da história bíblica».[1] Onze? Vocês não esperavam que fossem doze? É como se algum Toledót, alguma genealogia estivesse faltando lá. Este sentimento é amplificado quando percebemos que temos Toledót de todos em Gênesis: de Adão, Noé e os filhos de Noé, Terá (pai de Abraão), Isaque e Ismael (filhos de Abraão), Jacó, de Esaú e muitos outros, entretanto, não temos Toledót de Abraão. Não há Toledót da pessoa mais importante da história Judaica, e embora seja fácil para nós seguir a genealogia de Abraão, a Torá nunca diz: «estas são as gerações de Abraão…». Por quê? Qual é a mensagem destes Toledót que faltam?

 Ao contrário de Isaque ou Ismael, Jacó ou Esaú, Abraão não cresceu em uma família que conhecia e adorava a Deus. O Toledót que falta de Abraão deixa isso muito claro: a estória e a história de Abraão começam com sua busca pessoal e revelação pessoal. Sim, Deus constrói toda a nação de Abraão, mas o início desta construção é muito abrupto, começa com a intervenção pessoal de Deus. E esta é, de fato, a mensagem destes Toledót que faltam: para todos, mesmo para aqueles que cresceram em famílias completamente disfuncionais ou ateístas, Abraão pode dizer: Eu era exatamente como você!

Tal pai, tal filho?  

Esta porção começa logo após a morte de Abraão, e pode-se esperar que agora a atenção da Bíblia mudaria para Isaque. No entanto, muda quase imediatamente para os filhos de Isaque. De todos os três patriarcas, a personalidade de Isaque é a menos claramente definida, tanto que sua vida parece uma repetição da experiência de Abraão, portanto, aos olhos de muitos estudiosos da Bíblia, Isaque é apenas um elo entre Abraão e Jacó. No entanto, eu pessoalmente acho que a Escritura descreve Isaque como um produto muito real de circunstâncias reais. Ele era filho de pais de idade avançada e provavelmente foi superprotegido em sua juventude. Sua mãe era uma mulher de caráter forte, o grande status de seu pai deve ter parecido quase intimidante para seu filho. Ele perdeu seu meio-irmão, a quem acredito que amava profundamente. Além de tudo, ele quase foi morto pelo pai. Experiências traumáticas parecem tê-lo seguido, então não é de se estranhar que, como resultado de todos os seus sofrimentos e traumas, Isaque tenha se tornado uma pessoa reflexiva, pensativa e quieta. Como tudo o mais, tinha conotações positivas e negativas: ele provavelmente era emocional e terno, e é isso que vemos em seu relacionamento com Rebeca, mas também pode significar que ele era uma pessoa fraca, e é isso que vemos em sua paternidade.

Como sabemos que Isaque era um marido terno? Há um versículo em nossa porção que sempre toca meu coração: «Isaque orou ao SENHOR em favor de sua esposa, porque ela não tinha filhos. O SENHOR respondeu à sua oração…». Este versículo nos fornece um vislumbre deste casamento, do relacionamento muito próximo e íntimo deste casal. Sara, esposa de Abraão, e Raquel, esposa de Jacó, também eram estéreis, mas não ouvimos uma única palavra nas Escrituras falando de seus maridos orando por elas. Além disso, a oração de Isaque foi muito especial: a palavra «orou» aqui (em muitas traduções é «implorou») traduz a palavra Hebraica (יֶעְתַּר; ye’etár)  e é derivada da mesma raiz que é usada na segunda metade deste versículo quando «o SENHOR respondeu à sua oração». Isaque suplicou (וַיֶּעְתַּ֙ר יִצְחָ֤ק) ao SENHOR, e o SENHOR suplicou em resposta ao seu apelo (וַיֵּעָ֤תֶר לוֹ֙ יְהוָ֔ה). Toda esta dinâmica entre o apelo de Isaque e a resposta do Senhor se perde completamente na tradução e, no entanto, é exatamente esta dinâmica, este compromisso apaixonado de continuar e seguir em frente, que trouxe o resultado desejado: o Senhor respondeu a ele e Rebeca, sua esposa, concebeu. Rashi escreve: «Ele (Deus) se permitiu ser suplicado, aplacado e influenciado por ele».

Isaque foi realmente enganado?

Isaque também era um bom pai? A Escritura nos fala sobre o óbvio favoritismo dos pais na família de Isaque e Rebeca. Notavelmente, não encontramos aqui nenhum julgamento ou explicação: a Torá não justifica, não desculpa, não fornece nenhum comentário, ela simplesmente afirma os fatos: «Isaque amava Esaú… mas Rebeca amava Jacó»[2] – e ficamos nos perguntando por quê. Como sempre, o Hebraico pode nos ajudar aqui. 

Enquanto a maioria das traduções Inglesas chama Esaú de «um homem do ar livre», o texto Hebraico original o chama de «um homem do campo». Essa diferença é importante. Ao contrário dos pais, Isaque nasceu na terra, ficou na terra toda a sua vida, e em algum momento, ele se tornou o primeiro fazendeiro de sua família: ele semeou e colheu e se tornou extremamente abençoado nisto: «Então Isaque semeou naquela terra, e ceifou no mesmo ano cem vezes mais, e o  Senhor o abençoou».[3] Provavelmente, é por isso que Isaque amava Esaú, os dois eram homens do campo: «Oh, o cheiro do meu filho é como o cheiro de um campo que o SENHOR abençoou».[4] O campo é um símbolo de quem ama a terra e a natureza, e Isaque e Esaú provavelmente passaram muito tempo juntos ao ar livre, no campo. Acredito que foi assim que o vínculo especial deles foi desenvolvido. Mas, para ver isso, é preciso saber que no texto original em Hebraico Esaú é chamado de «homem do campo».

Todos conhecem a história de Jacó fingindo ser Esaú e, assim, por meio de engano, obtendo a bênção de Isaque. Tem havido infindáveis disputas e discussões sobre se tal engano era um meio aceitável para alcançar o propósito de Deus. Ao longo dos séculos, os artistas pintaram quadros expressivos retratando o velho, cego e indefeso Isaque, abençoando por engano Jacó em vez de Esaú. No entanto, Isaque foi enganado?

Antes de responder a esta pergunta, vamos ler um pequeno versículo no final de Gênesis 26: quando Esaú tinha 40 anos, ele tomou duas esposas locais e «ambas se tornaram amargura de espírito para Isaque e Rebeca». Esta expressão, «amargura de espírito», traduz a expressão Hebraica marát rúaj – literalmente, «amargura do espírito». Assim, para um leitor Hebraico, é muito claro que essas esposas eram uma fonte muito séria de frustração para Isaque e Rebeca.

No entanto, foi só depois que Isaque enviou Jacó a Padan-aram para tomar uma esposa de lá, que a Torá nos mostra Esaú percebendo que «as filhas de Canaã não agradaram a seu pai Isaque». Muitos anos se passaram desde que Esaú tomou para si estas esposas (mais de 30 anos, segundo alguns cálculos), e evidentemente, ao longo de todos esses anos, Isaque não foi capaz de enfrentar Esaú e dizer-lhe o quão infeliz estava com sua escolha. Tendo este vínculo especial com Esaú, o suave e quieto Isaque não é capaz de enfrentá-lo com qualquer verdade decepcionante ou desafiadora.

Assim, podemos ler a história da «bênção roubada» de uma forma muito diferente. Talvez Isaque saiba muito bem que a bênção pertence a Jacó, mas ele simplesmente não conseguiu encarar seu amado filho com esta mensagem. A mentira de Jacó vem como uma dádiva de Deus: Isaque finge estar enganado, o tempo todo sabendo da identidade de Jacó, e abençoa o filho que deveria ser abençoado!

Água da vida

Nesta porção da Torá, encontramos outro exemplo surpreendente dos tesouros: «Perdido na tradução» das Escrituras Hebraicas: Isaque reabriu os poços de Abraão («pois os Filisteus os haviam fechado após a morte de Abraão») e ele os chamou «depois dos nomes pelos quais seu pai os chamava», e então, o que ele encontrou lá? Em Português, lemos que encontraram um poço com água corrente ou nascente. No entanto, soa muito mais profundo em Hebraico.

Surpreendentemente, as palavras Hebraicas para «água corrente» aqui são (מים חיים; máyim hayím) «água viva ou água da vida»É verdade que, no plano físico, máyim hayím pode se referir à água corrente e, neste sentido, a tradução está correta, mas estas palavras também têm um profundo significado espiritual, que se perde completamente na tradução, o significado das palavras máyim hayím: «água viva», não pode ser superestimado. Toda vez que estas palavras são usadas nas Escrituras, elas sempre se referem ao nível espiritual, ao Espírito de Deus, à Água da Vida de Deus.

 

[1] The Torah: A Modern Commentary, NY, 1981, p .29.

[2] Gênesis 25:28.

[3] Gênesis 26:12.

[4] Gênesis 27:27.

Trechos dos meus livros estão incluídos em muitas postagens neste blog, então se vocês gostam dos meus artigos, vocês podem gostar também dos meus livros, vocês podem obtê-los aqui. As percepções que vocês leem nessas páginas são típicas do que compartilhamos com nossos alunos durante as aulas DHB (Discovering the Hebrew Bible/Descobrindo a Bíblia Hebraica) ou WTP (Weekly Torah Portion/Porção Semanal da Torá). Se esses artigos despertarem seu interesse por descobrir os tesouros escondidos da Bíblia Hebraica, ou estudar em profundidade a Parashát Shavúa, junto com os conhecimentos do Novo Testamento, ficaria feliz em fornecer mais informações (e também um desconto de professor para os novos alunos) em relação aos maravilhosos cursos da eTeacher (juliab@eteachergroup.com).

 

About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

You might also be interested in:

Perdido Na Tradução: A Face De...

Por Julia Blum

Perdido Na Tradução: Conectando...

Por Julia Blum

Join the conversation (No comments yet)

Deixe uma resposta