Shavuot: A Entrega Da Tora

«15Contareis para vós outros desde o dia imediato ao  sábado, desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida, sete semanas (shabat)inteiras serão. 16Até ao dia imediato ao sétimo sábado (shabat), contareis cinquenta dias; então trareis nova oferta de manjares ao Senhor».[1]

Nós examinamos esta Escritura em nosso último post —a Escritura principal que data o Shavuot, a Festa das Semanas, um dos três festivais bíblicos de peregrinação. Surpreendentemente, a Tora não fornece uma data específica para este festival, em vez disso liga sua data diretamente aquela da  Páscoa. Existem vários nomes nas Escrituras para este festival, por exemplo, em Êxodo 23:16 , quando o Senhor fala de três festas anuais, Ele chama Shavuot Chag HaKatzir, Festa da Colheita. Mas a palavra Shavuot significa «semanas», e o festival de Shavuot, em primeiro lugar, marca a conclusão do período da contagem de sete semanas —a contagem do Omer entre a Páscoa e Shavuot, como vimos na semana passada—. Também falamos sobre diferentes entendimentos das palavras: «do dia depois do shabat» quer se refiram ao Domingo, o primeiro dia da semana e ao dia seguinte ao shabat semanal, ou ao segundo dia da Festa dos Pães Ázimos. Houve diferentes pontos de vista em diferentes grupos ao longo da história, mas hoje, a segunda visão é mais amplamente aceita e shavuot é realizado no dia 6 de Sivan, cinquenta dias após o segundo dia da Páscoa. O que Shavuot comemora na tradição Judaica?

O entendimento tradicional judaico

Na tradição Judaica, Shavuot veio a ser entendido como uma comemoração da entrega da Tora a Moisés no Monte Sinai. Por quê? Em Êxodo 19:1 , lemos que os Israelitas chegaram ao sopé do Monte Sinai «no terceiro mês». O terceiro mês depois do Êxodo é Sivan; já que este também era o mês do Shavuot, os rabinos deduziram que Deus entregou a Tora no Shavuot. Assim, o Shavuot tornou-se associado com a entrega da Tora. As primeiras referências a esta interpretação datam dos séculos II y III d.C. Gradualmente, na tradição Judaica, tornou-se חג תורה  מתן  o Festival da Entrega da Tora. A palavra Shavuot שבועות em si fornece provas adicionais, uma vez que também pode ser lida como «juramentos»: naquele dia, Deus jurou fidelidade eterna a Israel, e Israel se tornou o povo de Deus.

Agora é amplamente aceito que a Tora foi entregue por Deus ao povo Judeu no Shavuot. Nesse sentido, todos os anos, no feriado de Shavuot, o povo Judeu se vê renovando essa experiência —renovando a nossa aceitação da Tora—. Assim, cada Festival no calendário Judaico está associado a um grande evento histórico e a um grande tema religioso. «Pesaj, celebrando o Êxodo do Egito, tem criação como tema, a criação do povo Judeu; o tema de Shavuot é revelação; e o tema de Succot, associado aos quarenta anos de peregrinação, culminados pela entrada na Terra Prometida, é a redenção».[2] Estes três  temas principais: criação, revelação e redenção, são muito importantes e estão presentes em diferentes aspectos da vida Judaica, mas são mais evidentes nos três Festivais Bíblicos.

Megilat Rute

Como seria de se esperar, as leituras da sinagoga para este feriado incluem Êxodo 19-20: a subida de Moisés do Monte Sinai e os Dez Mandamentos. No entanto, há uma leitura especial adicional para Shavuot: o livro de Rute, Megilat Rute, também é lido neste Festival. Por quê? A primeira e tradicional explicação é que a história de Rute é a história de uma colheita. Em segundo lugar, Rute e Noemi vieram a Beth-Lehem por volta da época de Shavuot; e em terceiro lugar, há uma lenda que o Rei Davi morreu em Shavuot, e Rute foi uma bisavó de Davi. «Além disso», escreve David Stern, «uma vez que fala sobre a união da mulher Moabita Rute com a família de Deus, isto dá um remez (indicio) sobre o futuro aspecto da obra de Deus na terra, a união dos Gentios ao povo de Deus, os Judeus, através do Messias Yeshua».[3] Concordo que a escolha deste livro para Shavuot foi absolutamente profética, mas gostaria de oferecer aqui algumas considerações adicionais.

O Festival de Shavuot é descrito na Torah de uma maneira muito prosaica, muito comum, como Chag HaKatzir, Festa da Colheita. No entanto, tornou-se o dia em que o céu se abriu e a realidade física e visível foi transformada ao Seu toque. Isso aconteceu tanto na Tora como no Novo Testamento —no Monte Sinai e em Jerusalém— nos dois dias, a realidade de Deus brilhou através das circunstâncias terrestres, comuns e visíveis. A realidade celestial encheu a terrestre e as histórias que pareciam terrenas e comuns tornaram-se preenchidas com o céu.

Agora, há muitas coisas que poderíamos dizer sobre o livro de Rute, mas para mim, pessoalmente, uma das coisas mais surpreendentes sobre este livro é a aparentemente enorme lacuna entre o cotidiano e o celestial: para Shavuot, para o «dia em que o céu se abriu», lemos essa história com a colheita, o limite e muitos outros detalhes quase técnicos. No entanto, à medida que essa história se desenrola, a lacuna começa a desaparecer: como em um rolo de filme duplamente exposto com suas imagens sobrepostas, começamos a ver a realidade de Deus começando a se mostrar através das circunstâncias prosaicas visíveis. Mais uma vez, a história que parecia terrestre e comum torna-se preenchida com o céu e, nesse sentido, o livro de Rute é uma correspondência perfeita para a leitura de Shavuot.

Deixe-me terminar este artigo com uma significativa visão Hebraica . Todos conhecemos as famosas palavras de Rute: «onde quer que vá, eu irei, onde quer que você se hospede, eu irei me hospedar, seu povo será meu povo e seu Deus será meu Deus».[4] Ela diz estas palavras no  primeiro capítulo do livro, quando ela decide permanecer com Naomi, enquanto a segunda nora, Orfa, voltou atrás. A palavra Hebraica que quero mostrar aqui, acredito, explica a diferença entre essas duas mulheres —entre aquela que foi e aquela que não foi—.

Rute 1:18 diz: «Quando ela viu que ela estava firmemente decidida a ir com ela, então ela deixou de insistir com ela»Esta palabra «firmemente decidida» (às vezes traduzida como «determinada») traduz uma palavra Hebraica מִתְאַמֶּ֥צֶת —fazer um esforço—. Nas Escrituras Hebraicas, bem como em algumas outras versões, é a mesma palavra que ouvimos de Jesus em Lucas 13:24: «Façam todos os esforços para entrar pela porta estreita». Para se juntar ao povo de Deus, andar no caminho de Deus requer esforço consciente, e Rute fez esse esforço, enquanto Orfa, com todas as boas intenções que tinha, não fez o esforço. É por isso que lemos o livro de Rute —e não o livro de Orfa— em Shavuot.

 

[1] Levitico 23:15,16

[2] David H. Stern, Jewish New Testament Commentary, Jewish New Testament Publications, 1995 – p.219

[3] Ibid. p. 220

[4] Rute 1:16

 

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About the author

Julia BlumJulia is a teacher and an author of several books on biblical topics. She teaches two biblical courses at the Israel Institute of Biblical Studies, “Discovering the Hebrew Bible” and “Jewish Background of the New Testament”, and writes Hebrew insights for these courses.

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